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UNIDADE E DIVERSIDADE NA CULTURA POPULAR

AS CLASSES ALTAS E A PEQUENA TRADIO
Se todas as pessoas numa determinada sociedade partilhassem da mesma cultura, no haveria a mnima necessidade de se usar a expresso cultura popular. Essa , 
ou foi, a situao em muitas sociedades tribais, tais como foram descritas pelos antroplogos sociais. Essas descries podem ser simplificadamente resumidas da 
seguinte maneira: uma sociedade tribal  pequena, isolada e auto-suficiente. Entalhadores, cantores, contadores de estrias e o seu pblico formam um grupo que est 
face a face, partilhando de valores bsicos e dos mitos e smbolos que expressam esses valores. O artfice ou o cantor caa, pesca ou cultiva o solo como outros 
membros da comunidade, e estes entalham ou cantam como ele, ainda que no o faam to bem nem com a mesma freqncia. A participao das demais pessoas na apresentao 
artstica  importante. Elas respondem a charadas e cantam em coros. Mesmo o entalhe pode ser uma atividade semicoletiva; entre os tivs da Nigria, se um homem que 
est entalhando uma vara  chamado e se afasta, algum do lado pode pegar a lmina e continuar o trabalho.1 
Essa descrio simplificada, ou modelo, tem sua importncia para a Europa no incio dos tempos modernos, pelo menos nas regies mais pobres e distantes, onde eram 
raros os nobres e clrigos. Estudiosos de baladas na Esccia, Srvia, Castela ou Dinamarca por vezes descreveram a comunidade da balada, como a denominam, em termos 
semelhantes aos que usa o antroplogo referindo-se  sociedade tribal.2
No entanto,  evidente que esse modelo no se aplica  maior parte da Europa do nosso perodo. Na maioria dos lugares, existia uma pg. 50 estratificao cultural 
e social. Havia uma minoria que sabia ler e escrever, e uma maioria analfabeta, e parte dessa minoria letrada sabia latim, a lngua dos cultos. Essa estratificao 
cultural faz com que seja mais adequado um modelo mais complexo, que foi apresentado nos anos 1930 pelo antroplogo social Robert Redfield. Em certas sociedades, 
sugeriu ele, existiam duas tradies culturais, a grande tradio da minoria culta e a pequena tradio dos demais.

A grande tradio  cultivada em escolas ou templos; a pequena tradio opera sozinha e se mantm nas vidas dos iletrados, em suas comunidades estratificao cultural 
e social. aldes ... As duas tradies so interdependentes. A grande tradio e a pequena tradio h muito tempo tm se afastado reciprocamente e continuam a faz-lo 
... Os grandes picos surgiram de elementos de contos tradicionais narrados por muita gente, e os picos voltaram novamente ao campesinato para modificao e incorporao 
nas culturas locais. 

A questo relativa ao movimento recproco entre as duas tradies  importante e voltaremos a ela depois. O que agora deve-se ressaltar  que Redfield, assim como 
Herder, oferece o que pode se chamar de definio "residual" da cultura popular, enquanto cultura ou tradio dos incultos, dos iletrados, da no-elite.3
Ao aplicar esse modelo aos incios da Europa moderna, podemos identificar com bastante facilidade a grande tradio. Ela inclui a tradio clssica, tal como era 
transmitida nas escolas e universidades; a tradio da filosofia escolstica e teologia medievais, de forma alguma extintas nos sculos XVI e XVII; e alguns movimentos 
intelectuais que provavelmente s afetaram a minoria culta: a Renascena, a Revoluo Cientfica do sculo XVII, o Iluminismo. Subtraia-se tudo isso da cultura dos 
incios da Europa moderna e o que restar? As canes e contos populares, imagens devotas e arcas de enxoval decoradas, farsas e peas de mistrios, folhetos e livros 
de baladas, e principalmente festividades, como as festas de santos e as grandes festas sazonais, o Natal, Ano-Novo, Carnaval, Primeiro de Maio e Solstcio de Vero. 
Esse  o material que interessar basicamente neste livro: artesos e camponeses, livros impressos e tradies orais.
O modelo de Redfield  um ponto de partida til, mas passvel de crticas. Sua definio da pequena tradio enquanto tradio da no-elite pode ser criticada, de 
modo bastante paradoxal, por ser ao mesmo tempo ampla e estreita demais.
A definio  estreita demais porque omite a participao das classes altas na cultura popular, que foi um fenmeno importante na vida europia, extremamente visvel 
nas festividades. O Carnaval, por pg. 51 exemplo, era para todos. Em Ferrara, no final do sculo XV, o duque se reunia  diverso, saindo mascarado s ruas e entrando 
em casas particulares para danar com as damas. Em Florena, Lorenzo de Medici e Niccol Machiavelli participavam do Carnaval. Em Paris, em 1583, Henrique III e 
seu squito "iam pelas ruas mascarados, indo de casa em casa e cometendo mil insolncias". Nos carnavais de Nuremberg, no incio do sculo XVI, as famlias aristocrticas 
desempenhavam papel de destaque.4 As associaes de folies, como a Abbaye de Conards, em Rouen, ou a Compagnie de Ia Mre Folle, em Dijon, eram dominadas pelos 
nobres, mas se apresentavam nas ruas para todos. Henrique VIII ia para os bosques no dia Primeiro de Maio, exatamente como os outros rapazes. O imperador Carlos 
V participava de touradas durante as festas, e seu bisneto Filipe IV gostava de assistir a elas.5
No era apenas nesses tempos de comemoraes coletivas ritualizadas que as classes altas ou cultas participavam da cultura popular. Pelo menos nas cidades, ricos 
e pobres, nobres e plebeus assistiam aos mesmos sermes. Poetas humanistas, como Poliziano e Pontano, registraram o fato de que eles ficavam na piazza como todo 
mundo, para ouvir o cantador de estrias, o cantastorie, e que apreciavam o espetculo. Importantes poetas do sculo XVII, como Malherbe e P. C. Hooft, gostavam 
de canes folclricas. Entre os apreciadores de baladas, encontravam-se reis e rainhas, como Isabel, de Espanha, Iv, o Terrvel, da Rssia, e Sofia, da Dinamarca.6 
O mesmo pode-se dizer da nobreza. Na Dinamarca e na Sucia, verses de baladas dos sculos XVI e XVII sobreviveram porque homens e mulheres da nobreza anotaram-nas 
em seus livros manuscritos de canes, ou visbcker. Um desses livros foi compilado por nada menos que Per Brahe, o Jovem, membro de uma das maiores famlias nobres 
da Sucia, que se tornou chanceler e membro do conselho regente. De maneira semelhante, vrias canes galicas sobreviveram porque foram coletadas, por volta de 
1500, por sir James MacGregor, deo de Lismore, em Argyll. Nobres ofereciam proteo para apresentadores tradicionais de destaque. O poeta Tindi viveu nas cortes 
de Andrs Bthory e Tams Ndasdy, enquanto o harpista John Parry era sustentado por sir Watkin Williams Wynne.7
Os palhaos eram populares tanto nas cortes como nas tavernas, e muitas vezes eram os mesmos. Zan Polo, o famoso bufo veneziano, apresentou-se perante o doge em 
1523. As palhaadas de Richard Tarleton eram muito apreciadas pela rainha Elizabeth, que "ordenou-lhes que levassem o criado embora por faz-la rir to desmedidamente", 
e na sua morte escreveram-lhe elegias latinas. O bufo francs Tabarin pg. 52 apresentou-se perante a rainha Maria de Frana em 1619, e a dedicatria numa coletnea 
de suas piadas afirma que a obra se destinava a cortesos, nobres, mercadores, e, de fato, para todos. Iv, o Terrvel, como observou um visitante ingls, adorava 
"bufes e anes, homens e mulheres que fazem cambalhotas  sua frente e cantam muitas canes  maneira russa". Ele tambm era um aficionado do aulamento de ces 
contra ursos acorrentados, e costumava ouvir, antes de se deitar, contos populares contados por cegos. Mesmo no final do sculo XVIII, na Rssia, cegos punham anncios 
nos jornais, oferecendo-se para o cargo de contador de estrias para famlias da fidalguia.8 Nobres e camponeses parecem ter dividido entre si o mesmo gosto por 
romances de cavalaria. No sculo XVI, o sieur de Gouberville, cavaleiro normando, lia Amadis de Gaule em voz alta para os seus camponeses em dias de chuva. Folhetos 
e livros de baladas parecem ter sido lidos por ricos e pobres, cultos e incultos. Sugeriu-se que os panfletos alemes do sculo XVII (que combinavam uma apresentao 
visual simples com citaes latinas) visavam a agradar a todos. Sobrevivem exemplares de almanaques franceses, em encadernaes de couro decoradas com as armas de 
nobres franceses. Curandeiros tinham protetores nas classes altas. Na Sucia, em 1663, existiam apenas vinte mdicos em todo o pas, de modo que os nobres no tinham 
outra alternativa de tratamento. Os nobres usavam objetos geralmente descritos hoje em dia como produtos de arte folclrica, como os ksor finlandeses, vasos de 
madeira entalhada reservados para bebidas cerimoniais. Alguns exemplares remanescentes dos sculos XVI e XVII esto pintados com as armas de nobres suecos.9
No era apenas a nobreza que participava da cultura popular; o clero tambm, particularmente no sculo XVI. Durante o Carnaval, como observou um florentino:

...homens da Igreja esto autorizados a se divertir. Frades jogam bola, encenam comdias e, vestidos a carter, cantam, danam e tocam instrumentos. Mesmo as freiras 
so autorizadas a celebrar, vestidas como homens...

No era absolutamente incomum ver os padres a cantar, danar ou usar mscaras nas igrejas em ocasies festivas, e eram os novios que organizavam a festa dos Loucos, 
grande festejo de algumas regies da Europa. Um caso singular mostra melhor esse ponto. Quando Richard Corbet era doutor em teologia (assim nos conta Aubrey): pg. 
53 

...ele cantou baladas na encruzilhada de Abingdon num dia de feira ... O cantor de baladas reclamou que ele no tinha o hbito e no podia apresentar suas baladas. 
O jovial doutor tira sua toga e pe o jaleco de couro do cantor de baladas, e sendo um homem bonito, e com uma bela voz cheia, em pouco tempo vendeu inmeras e teve 
uma grande audincia.

Na Sucia do sculo XVIII, o proco tinha a primeira dana com a noiva nos casamentos rurais, trinchava o pernil na festa e muitas vezes emprestava ao noivo suas 
roupas de padre, com as quais ele se casava, o que constitui forte indcio de que os procos participavam da cultura camponesa.10
A esta altura, algum pode objetar que pintei um quadro rseo demais sobre as relaes entre as classes. A classe dominante e culta no desprezava o "monstro de 
muitas cabeas", o povo? De fato sim. "Falar do povo  realmente falar de uma besta-fera", escreveu Guicciardini. Sebastian Franck escreveu sobre "a ral volvel 
e instvel chamada o homem comum". Essas citaes podem ser multiplicadas.11 Contudo,  necessrio insistir aqui que a gente culta ainda no associava baladas, livros 
populares e festas  gente comum, precisamente porque tambm participava, ela mesma, dessas formas de cultura.
Outra objeo possvel a essa tese de participao poderia ser que a nobreza e o clero no ouviam as canes folclricas nem liam os livros de baladas da mesma forma 
ou pelas mesmas razes que os artesos e camponeses. "Participao"  um termo impreciso:  mais fcil ver como os nobres podiam participar de uma festa do que de 
um sistema de crenas. Quando os membros da elite liam livros de contos ou baladas, eles podiam estar interessados no folclore, exatamente como alguns intelectuais 
hoje em dia. Isso decerto  possvel, e quanto mais se avana no sculo XVIII, mais provvel  essa interpretao. Em relao ao incio desse perodo, porm,  preciso 
lembrar que muitos nobres e clrigos no sabiam ler nem escrever, ou s o conseguiam com dificuldade, da mesma forma que os camponeses; na rea de Cracvia, por 
volta de 1565, mais de 80% dos nobres sem fortuna eram analfabetos. O estilo de vida de alguns nobres rurais e curas paroquiais no era to diferente do dos camponeses 
ao redor. Tambm estavam mais ou menos separados da grande tradio, o que tambm se aplica a inmeras mulheres da nobreza, pois raramente recebiam muita educao 
formal. Talvez as mulheres nobres devam ser vistas como intermedirias entre o grupo a que pertenciam socialmente, a elite, e o grupo a que pertenciam culturalmente, 
a no-elite;  interessante notar que vrios dos visbcker foram compilados por mulheres. Os nobres, eruditos, pg. 54  mantinham contato com a cultura popular atravs 
de suas mes, irms, esposas e filhas, e em muitos casos teriam sido criados por amas camponesas, que lhes cantavam baladas e contavam-lhes estrias populares.12
O modelo de Redfield precisa ser modificado, e pode ser reformulado da seguinte maneira: existiram duas tradies culturais nos incios da Europa moderna, mas elas 
no correspondiam simetricamente aos dois principais grupos sociais, a elite e o povo comum. A elite participava da pequena tradio, mas o povo comum no participava 
da grande tradio. Essa assimetria surgiu porque as duas tradies eram transmitidas de maneiras diferentes. A grande tradio era transmitida formalmente nos liceus 
e universidades. Era uma tradio fechada, no sentido em que as pessoas que no frequentavam essas instituies, que no eram abertas a todos, estavam excludas. 
Num sentido totalmente literal, elas no falavam aquela linguagem. A pequena tradio, por outro lado, era transmitida informalmente. Estava aberta a todos, como 
a igreja, a taverna e a praa do mercado, onde ocorriam tantas apresentaes.
Assim, a diferena cultural crucial nos incios da Europa moderna (quero argumentar) estava entre a maioria, para quem a cultura popular era a nica cultura, e a 
minoria, que tinha acesso  grande tradio, mas que participava da pequena tradio enquanto uma segunda cultura. Esta minoria era anfbia, bicultural e tambm 
bilnge. Enquanto a maioria do povo falava apenas o seu dialeto regional e nada mais, a elite falava ou escrevia latim ou uma forma literria do vernculo, e continuava 
a saber falar em dialeto, como segunda ou terceira lngua. Para a elite, mas apenas para ela, as duas tradies tnham funes psicolgicas diferentes; a grande 
tradio era sria, a pequena tradio era diverso. Uma analogia contempornea dessa situao encontra-se na elite anglfona da Nigria, cuja educao de estilo 
ocidental no a impede de participar da sua cultura tribal tradicional.13
Essa situao no se manteve esttica ao longo do perodo. As classes altas foram deixando gradualmente de participar da pequena tradio, no curso dos sculos XVII 
e XVIII, tema que ser discutido no captulo 9. Tudo o que est sendo apresentado aqui  uma descrio simplificada, um modelo. Uma objeo mais sria ao modelo 
 a de que ele no distingue grupos diferentes dentro do "povo", cuja cultura no era a mesma. Visto que a cultura popular  um conceito residual,  importante ver 
como esse resduo pode ser estruturado. Pg. 55

VARIEDADES DA CULTURA POPULAR: O CAMPO
A definio de pequena tradio, de Redfield, pode ser considerada estreita demais por excluir aquelas pessoas para quem a cultura popular constitua uma segunda 
cultura. Ela tambm pode ser considerada ampla demais; ao falar da "pequena tradio" no singular, sugere-se que ela era relativamente homognea, o que est longe 
de ser verdade nos incios da Europa moderna. Como Antnio Gramsci disse uma vez, "o povo no  uma unidade culturalmente homognea, mas est culturalmente estratificado 
de maneira complexa".14 Existiam muitas culturas populares ou muitas variedades de cultura popular   difcil optar entre as duas formulaes porque uma cultura 
 um sistema de limites indistintos, de modo que (como Toynbee descobriu, ao tentar enumerar as civilizaes do mundo)  impossvel dizer onde termina uma e comea 
outra. O que despreocupadamente chamamos de "cultura popular" muitas vezes era a cultura da parcela mais visvel do povo, os YAMs (young adult males), que representam 
todo o povo de maneira to insuficiente quanto os WASPs (white anglo-saxon protestants) representam os EUA.
Para os descobridores da cultura popular, o "povo" eram os camponeses. Os camponeses compunham de 80% a 90% da populao da Europa. Foi s suas canes que Herder 
e amigos chamaram "canes populares", s suas danas de "danas populares", s suas estrias de "contos populares". Sua cultura era uniforme? Olhando os camponeses 
hngaros, conforme os conhecera por volta de 1900, Zoitan Kodly tinha certeza que no:

No se deve pensar na tradio folclrica como um nico conjunto uniforme e homogneo. Ela varia fundamentalmente segundo a idade, as condies sociais e materiais, 
a religio, a educao, o local e o sexo.

Evidentemente, seria arriscado aplicar indiscriminadamente essa afirmao ao perodo anterior a 1800 e ao conjunto de toda a Europa. Kodly estava escrevendo sobre 
uma sociedade camponesa to consciente das distines sociais que, por exemplo, os homens casados e os solteiros sentavam-se em lugares diferentes na igreja e, mais, 
em mesas separadas nas estalagens.15 No entanto, existem razes para se pensar que a viso de Kodly, de modo geral,  vlida para os incios da Europa moderna.
A cultura surge de todo um modo de vida, e os camponeses dos incios da Europa moderna no tinham um modo de vida uniforme. Pg. 56 Alguns viviam em aldeias, como 
na Inglaterra; alguns em cidades, como no sul da Itlia; alguns em herdades isoladas, como na Noruega. No eram socialmente homogneos. Alguns eram livres, outros 
eram servos  em toda a imensa rea a leste do rio Elba, os camponeses de modo geral foram convertidos em servos ao longo do sculo XVI e incio do sculo XVII. 
Existiam camponeses ricos e pobres. Numa regio relativamente limitada, como o Beauvaisis no sculo XVII, a sociedade rural podia ser extremamente estratificada, 
com diferenas considerveis no estilo de vida do laboureur rico ("pequeno proprietrio rural", e no "lavrador"), e do journalier pobre.16 Em muitas partes da Europa, 
essa distino entre o campons rico, que era dono da sua terra e empregava terceiros para ajud-lo no trabalho, e o lavrador "sem terra de que viver, a no ser 
seus braos",16a era muito importante. No se pode esquecer esse aspecto da "comunidade orgnica" tradicional.
J menos fcil  dizer se existia uma estratificao cultural, tal como social, dentro do campesinato. Aqui, como em outras partes deste captulo, estamos abordando 
sistemas de significados partilhados atravs de um pequeno nmero de sinais ou indicadores externos, e  fcil l-los incorretamente. Os camponeses mais ricos tinham 
maior probabilidade de serem letrados, pois podiam se permitir o tempo para aprender a ler e escrever e tinham mais facilidade para adquirir livros de baladas e 
estrias. Tambm podiam mais facilmente possuir jarros e pratos pintados, cortinas e travesseiros bordados, e cangas de boi ou arcas de enxoval entalhadas com esmero, 
smbolos evidentes de riqueza e status na aldeia bem como corporificaes da cultura popular. J se sugeriu, de maneira bastante plausvel, que aquilo que chamamos 
de "arte folclrica" ou "arte camponesa" , na realidade, a arte criada para uma aristocracia rural.17 Agora, dizer que os camponeses mais pobres eram culturalmente 
carentes no quer dizer que tivessem uma cultura alternativa; eles podem ter aspirado  cultura dos aristocratas camponeses. Mas Kodly achava que "os abastados 
gostam de se distinguir dos mais pobres, mesmo em suas canes", e muitas canes folclricas tradicionais so apropriadas apenas para um s grupo social, como o 
drngvisor escandinavo, ou cano dos braos rurais, e o piqvisor, as "queixas" das empregadas domsticas maltratadas.18
Se a cultura surge de todo um modo de vida,  de se esperar que a cultura camponesa varie segundo diferenas ecolgicas, alm das sociais; diferenas no ambiente 
fsico implicam diferenas na cultura material e estimulam tambm diferentes atitudes. A ilustrao mais bvia desse aspecto , certamente, o contraste entre a cultura 
das montanhas e a cultura das plancies. O dr. Johnson observou que "assim como as pg. 57 montanhas existem muito antes de serem conquistadas, da mesma forma existem 
muito antes de serem civilizadas", conservando os hbitos tradicionais por mais tempo do que as plancies. Quando as "partes cultivadas" (no duplo sentido) mudam 
sua lngua, os montanheses podem "se converter numa nao distinta, impedida por diferena de fala de conversar com os seus vizinhos", como no caso dos habitantes 
das Terras Altas escocesas, dos bascos e dos "dalecarlianos". Os montanheses, continuava ele, so "belicosos" e tambm "gatunos", "porque so pobres e, no tendo 
manufaturas nem comrcio, s podem enriquecer com o furto"; de qualquer maneira, o brao da lei dificilmente pode alcan-los.19
As idias do dr. Johnson foram aperfeioadas e reforadas por uma srie de estudiosos. Na Inglaterra, arquelogos ressaltaram a diferena entre as zonas baixas e 
as pobres e mais conservadoras zonas altas: diferenas de linguagem, de tipos de casas, e muitos outros traos culturais. Na Andaluzia, os montanheses dos Alpujarras 
foram os ltimos a adotar o islamismo e tambm os ltimos a abandon-lo.20 Otmar estava certo (acima, p. 43) em procurar contos folclricos tradicionais nos montes 
Harz. Zonas altas so refgios bvios para bandidos e outros fugitivos que "vo para os montes", e essas zonas continuaram a ser o lar da "poesia herica tradicional", 
louvando suas proezas. Danas em que os participantes saltam parecem estar associadas a regies montanhosas, no pas basco, na Noruega, nas terras altas da Baviera, 
Polnia e Esccia, provavelmente por serem velhas formas de dana que no sobreviveram nas plancies.21 As caas s bruxas dos sculos XVI e XVII parecem ter sido 
particularmente intensas em reas montanhosas, como os Alpes e Pirenus, seja porque, como costumavam pensar os estudiosos, o ar da montanha estimula as fantasias 
ou, de forma mais plausvel, devido  hostilidade dos moradores das terras baixas contra os habitantes das terras altas e as diferenas entre as duas culturas.22 
Mais surpreendente,  primeira vista,  o fato de que, no final do perodo, algumas regies montanhosas eram reas com alto grau de alfabetizao. A Noruega e a 
Sucia so exemplos bvios, ao passo que na Frana o atual departamento dos Altos Alpes tinha um ndice de alfabetizao de 45% no final do sculo XVIII, mais que 
o dobro da mdia nacional. Isso talvez porque, como notou um observador em 1802, "o clima frio no lhes permite nenhuma outra atividade durante o inverno". Elementos 
do excedente populacional dos Alpes franceses viravam mestres-escolas, ao passo que muitos vendedores ambulantes de livros de contos e baladas vinham do Alto Comminges, 
nos Pireneus franceses.23 Pg. 58 Sobrepondo-se ao contraste entre habitantes das terras baixas e das terras altas, havia uma outra diviso importante entre agricultores 
e pastores: pastores de porcos, cabras, vacas (em castelhano, vaqueros, os primeiros cowboys) e, sobretudo, carneiros.* A cultura do pastor, em particular, era to 
caracterstica, to diferente da cultura do campons que merece ser descrita com certo detalhe.24 Seu aspecto caracterstico era simbolizado por roupas especiais, 
como o avental. Os pastores podiam ser oriundos de uma aldeia agrcola, mas no poderiam morar l durante boa parte do ano, porque tinham de migrar com os rebanhos. 
Na Espanha, por exemplo, os rebanhos passavam o vero nas montanhas em torno de Soria, Segvia, Cuenca e Len, e a invernada nas plancies do sul. Os pastores eram 
pobres e isolados. Um missionrio jesuta que os procurou em suas choupanas perto do Eboli, no sul da Itlia, considerou-os to ignorantes que mal pareciam humanos. 
"Indagados sobre quantos deuses existiam, um disse 'cem', outro *mil."25 Os pastores tambm eram livres; na Polnia, onde os camponeses eram servos, um pastor servo 
constitua uma rara exceo. Os pastores estavam longe da interferncia de clrigos, nobres e funcionrios do governo. No admira que seu modo de vida fosse idealizado 
na poesia pastoril. Eles tinham tempo  vontade, podendo pass-lo a entalhar cajados, bordes e polvorinhos de chifre.26 Podiam fazer msica, tocando gaita de foles, 
feita de couro de carneiro ou cabra, popular em qualquer lugar onde houvesse muitos pastores, desde as Terras Altas da Esccia at a grande plancie da Hungria, 
ou tocando flauta, lenta e tristemente, quando os carneiros se perdiam, e alegremente, quando eram encontrados. Como diz o provrbio catalo (talvez exprimindo a 
inveja dos camponeses): "Vida de pastor, vida regalada/ Cantant i sonant guanya Ia soldada" ("Vida de pastor, vida regalada/ Cantando e tocando ganha a soldada"). 
Aos pastores frequentemente atribuam-se poderes mgicos, como o conhecimento dos astros, pois viviam em locais privilegiados para observ-los (da o ttulo do Calendrier 
des Bergers), ou a habilidade de curar animais e pessoas.27 Nem o seu conhecimento nem a sua ignorncia correspondiam aos dos agricultores.
Em compensao pela sua solitria vida de trabalho, os pastores desenvolveram um conjunto elaborado de festividades, pelo menos na Europa central. Tinham suas prprias 
guildas e irmandades. Tinham seus santos prprios, como so Wendelin (conta a estria que era um pg. 59 filho de rei que virou pastor), so Wolfgang ou so Bartolomeu, 
cuja festa, em 24 de agosto, marcava a passagem do quadrante de vero para o do inverno. Nesse dia, os pastores locais convergiam para certas cidades do sul da Alemanha, 
como Markgrningen, Rothenburg e Urach, para escolher seu rei e sua rainha, banquetear-se e danar suas danas prprias. Tambm no Natal faziam algo alegre; na Espanha 
e em outros lugares representavam a adorao dos pastores nos autos del nacimiento ou peas natalinas.28
No surpreende que os pastores muitas vezes se casassem entre si, como em Hanover, nos sculos XVII e XVIII. Tinham seu orgulho pessoal e eram rejeitados pelo resto 
da sociedade, como freqentemente ocorre a pessoas sem teto fixo. Os agricultores constantemente acusavam-nos de serem preguiosos e desonestos. Muitas guildas alems 
consideravam os filhos de pastores como unehrlich, "sem honra, e portanto sem direito a serem indicados como membros dos grmios. Quando alguns pastores de Brie, 
no final do sculo XVII, foram acusados de malefcio, de praticar o mal por meios sobrenaturais, isso nos lembra uma verso em miniatura das caas s bruxas nos 
Alpes e Pireneus, uma perseguio aos estranhos.29
Alguns grupos importantes de gente do campo no eram agricultores nem pastores;  muito difcil dizer at que ponto tinham atitudes e valores diferenciados. Havia 
os artesos da aldeia, como os ferreiros, carpinteiros ou tecelos (em tempo integral ou parcial), os quais  natural imaginar numa posio intermediria, culturalmente 
falando, entre outros aldees que no eram artesos, e outros artesos que no eram aldees. Particularmente os ferreiros parecem ter desfrutado de um certo prestgio, 
e Novak Kovac, o Forjador, era um heri do pico srvio. A seguir, h os heris

(*) As terras altas geralmente eram pastoris, mas nem todas as terras baixas eram cultivveis  a bvia exceo no perodo era a grande plancie hngara.
 ligados s florestas, em especial os lenhadores e carvoeiros, que podiam viver nas matas durante semanas a fio. Eles formam um grupo obscuro, separados da cultura 
alde como os pastores, mas aparentemente (ao contrrio-dos lenhadores modernos) sem uma cultura alternativa prpria, vivendo  margem da sociedade. s vezes (como 
no caso dos cagots do sudoeste da Frana), eram tratados como prias, perseguidos como feiticeiros, associados  lepra. Na Rssia, porm (como nos Blcs), a cultura 
desse grupo era dominante, e visitantes ingleses observaram, surpreendidos, que "as suas igrejas so feitas de madeira" e, ainda, que "no havendo liga de estanho, 
as xcaras feitas de btula so muito boas". Os machados, para russos e srvios, alm de utilitrios, eram objetos sagrados, smbolos de proteo. As rvores tinham 
uma funo importante nos rituais russos  abetos no Natal, btulas na semana da Santssima Trindade.30 Pg. 60
        Os cossa os e outros grupos similares, como os hajduks da Europa central, no eram propriamente camponeses, nem soldados ou mesmo ladres, mas um pouco dos 
trs ao mesmo tempo. Orgulhavam-se do seu status e muitas vezes desprezavam seus vizinhos camponeses. Seus valores eram distintamente democrticos e igualitrios 
 os cossacos, por exemplo, elegiam seus lderes ou atamans,  sua maneira, vestiam-se bem. Como lembrou Vuk Stefanovic Karadzic:

Os hajduks da nossa poca na Srvia geralmente vestiam calas de tecido azul brilhante ... um barrete de seda bordada de onde pendiam borlas de seda de cada lado 
at o peito  estes eram usados por poucos que no fossem hajduks. Gostavam particularmente de usar discos de prata sobre o trax.

Eles tinham suas prprias danas de armas e canes, "principalmente canes sobre hajduks,31 Se os cossacos e outros heris bandidos tantas vezes ingressaram na 
cultura popular da Europa central e oriental, isso no significa necessariamente que os bandidos fossem sempre populares entre os camponeses de sua poca.
Um outro grupo orgulhoso, autoconsciente, sobre o qual existem mais informaes,  o dos mineiros. Sem dvida, o risco do seu trabalho, os metais preciosos que descobriam, 
a diferena entre suas tarefas e as "normais", a concentrao de mineiros em poucas regies  tudo isso ajudou a criar a conscincia que tinham de si mesmos. Na 
Europa central, as minas vinham prosperando no incio do nosso perodo: Kutn Hora, uma cidade mineira na Bomia, era a segunda cidade do reino, e novas cidades 
vinham brotando perto das minas, como Jachymov, tambm na Bomia, conhecida na Alemanha como Joachimstal, ou as trs Annabergs, na Saxnia, Silsia e Estria. Os 
mineiros tinham os seus santos padroeiros prprios, como santa Ana (por causa do tesouro escondido que trazia em si), santa Brbara (porque partiu para as montanhas) 
e o profeta Daniel (devido  sua associao com as idades do ouro e da prata). Suas roupas eram diferenciadas, e particularmente os capuzes. Tinham suas capelas, 
suas peas e suas canes, o Bergreihen ou Bergmannslieder, e no sculo XVI foram publicadas coletneas dessas canes. Tinham suas danas, como a dana dos mineiros 
de Durrenberg, que os imitava no trabalho; sobre isso h documentos do sculo XVII. Os mineiros tinham suas lendas, que se referiam principalmente aos espritos 
das minas (o Berggeist, o Bergmonch e o Bergmnnlein, ou ano), que guardavam os tesouros e precisavam ser apaziguados com oferendas. Esse tipo de lendas, sobre 
a descoberta de tesouros graas a auxlio sobrenatural, era corrente no s na Alemanha pg. 61 mas em reas de minerao por toda a Europa, desde a Cornualha at 
os Urais. Dada a existncia dessa rica cultura dos mineiros, no  de surpreender que o clrigo luterano Johann Mathesius, pastor de Joachimstal, tenha escrito hinos 
e sermes especialmente para eles.32
Os mineiros, assim como os pastores, podem ter desenvolvido sua cultura prpria por terem sido rejeitados pelo mundo que os rodeava. Os mineiros de carvo escoceses 
do sculo XVII estavam submetidos  servido e eram desprezados, e em Fife no podiam ser enterrados nos mesmos cemitrios onde estavam os trabalhadores livres. 
Esta quadra espanhola tem um tom particularmente condescendente:

Pobresitos los mineros,
Qu desgrasiatos son,
Pasan su bida en Ias minas,
Y mueren sin confesin.
(Coitadinhos dos mineiros, / Que desgraadinhos so, / Passam sua vida nas minas, / E morrem sem confisso.)

Uma pintura do sculo XV sugere que o mundo exterior no fazia uma distino cuidadosa entre os anes ou gnomos que viviam nas minas e os prprios mineiros, midos 
e encapuzados como andavam.33

VARIEDADES DA CULTURA POPULAR: AS CIDADES
A cultura popular rural, portanto, estava longe de ser monoltica. Apesar disso, ela pode ser contrastada com a cultura popular das cidades. Nas cidades, as festas 
ocorriam em escala muito maior; e, o que  mais importante, todo dia era uma festa, no sentido de que havia permanentemente  disposio diverses, oferecidas por 
profissionais. Pelo menos nas grandes cidades, os cantores de baladas e palhaos apresentavam-se o tempo inteiro, ao passo que os aldees s os viam de vez em quando. 
As cidades abrigavam minorias tnicas, as quais muitas vezes viviam juntas e partilhavam de uma cultura que exclua os de fora. Os judeus em seus guetos so o exemplo 
mais evidente, mas tambm havia os mouros nas cidades do sul da Espanha, os gregos e eslavos em Veneza, e muitos outros grupos menores.
O sistema de guilda ajudava a dar a artesos e comerciantes uma cultura comum, diferente da dos camponeses. As guildas tinham os seus santos padroeiros, suas tradies 
e rituais prprios, e organizavam tanto o trabalho como o lazer dos seus membros. As peas religiosas encenadas em vrias cidades para a festa de Corpus Christi 
muitas pg. 62 vezes eram organizadas a partir das guildas, e o mesmo acontecia com algumas representaes seculares, como o espetculo do Lorde Prefeito de Londres. 
Em alguns carnavais alemes, a guilda dos aougueiros desempenhava papel de destaque, por vezes apresentando uma dana armada com seus trinchantes ou fazendo com 
que os seus aprendizes pulassem dentro de um rio. Muitas vezes as irmandades religiosas eram recrutadas a partir de guildas especficas. Os artesos tinham seus 
mitos prprios, como o mito londrino de Dick Whittington ou as inmeras estrias sobre os fundadores de certos ofcios. Eles eram exigentes quanto s pessoas que 
seriam admitidas no ofcio, e, alm dos filhos de pastores, podiam ser excludos os filhos de mendigos, verdugos, coveiros ou menestris, por no serem "gente honrada".34
Talvez devssemos ser mais precisos, falando de culturas de artesos no plural, distinguindo entre os tecelos, os sapateiros, e assim por diante. Cada ofcio tinha 
sua cultura prpria, no que refere s suas habilidades particulares, transmitidas de gerao a gerao, mas pelo menos alguns deles parecem ter tido uma cultura 
prpria em sentido mais amplo e completo. A documentao sobre essas culturas  uma mescla do que os membros do ofcio diziam sobre si mesmos e o que os outros diziam 
deles; as evidncias, se no so totalmente confiveis, pelo menos so sugestivas. Pode-se partir das roupas da profisso. Os carpinteiros tendiam a usar aventais 
de couro e a carregar uma rgua. Um alfaiate andaria bem vestido com uma agulha e linha fincadas no casaco.35 Existia tambm a "cano da profisso" (Ambachtslied, 
Yrkevisa).
Os tecelos possuam mais condies de ter uma cultura  parte do que a maioria dos artesos. Entre eles, incluam-se alguns trabalhadores relativamente orgulhosos 
e prsperos, que lidavam com materiais caros como a seda; eram numerosos e, na verdade, dominavam algumas cidades, como Norwich, Lyon e Segvia; seu trabalho permitialhes 
ler, se quisessem, apoiando o livro no tear. Na Lyon do sculo XVIII, cerca de 3/4 das pessoas que trabalhavam com seda eram letrados. Isso ajuda a explicar o predomnio 
dos tecelos nos processos por heresia na Inglaterra, Frana ou Itlia no incio do sculo XVI. O lollardismo* exercia atrao sobre os trabalhadores txteis em 
Colchester, Newbury, Tenterden e outros lugares. O exemplo ingls  evidente para ser apresentado aqui, visto que a Inglaterra ocupava um lugar pg. 63 importante 
nas indstrias txteis da Europa. Thomas Deloney, o tecelo que trabalhava seda e que se tornou escritor profissional, nunca deixou de se orgulhar de seu ofcio 
anterior. Sua famosa estria Jack of Newbury apresentava um heri-tecelo, e o livro foi dedicado a trabalhadores txteis para mostrar "a grande reverncia e respeito 
a que homens do ofcio tinham chegado em tempos anteriores". Nos sculos XVII e XVIII, Deloney foi reimpresso com frequncia, s vezes em edies populares resumidas. 
Ele no foi o nico escritor a levar em conta o pblico tecelo. O pastor presbiteriano John Collinges, por exemplo poderia ser descrito como um Deloney espiritual. 
Ele era ministro em Norwich, e o seu The Weavers' Pocket-Book ("Livro de bolso dos teceIos") dirigia-se particularmente aos profisionais daquela cidade que teciam 
fios de l. Sua inteno era a de "espiritualizar" a arte da tecelagem, com instrues aos leitores sobre "como elevar meditaes celestiais a partir das vrias 
partes do seu trabalho". Imprimiam-se almanaques especiais para uso dos tecelos, e o poema The Triumphant Weaver ("O tecelo triunfante"), publicado como livreto 
popular no final do sculo XVII, tratava em seus trs cantos da antiguidade, utilidade e excelncia do ofcio. O louvor aos tecelos em linho foi cantado num poema 
alemo semelhante, impresso em 1737:

Dass Gott sei ein Erheber
Des Handwerks der Leinweber,
Macht mir die Bibel kund.

(Que Deus  um enaltecedor / Do ofcio do tecelo em linho, / Faz-me a Bblia saber.)

Mostras ainda mais expressivas da existncia de uma cultura tecel provm de suas canes de trabalho, cantadas ao ritmo do tear. Muitas delas foram registradas 
no sculo XIX, de Lancashire  Silsia, numa poca em que a tecelagem em tear manual vinha declinando. Provavelmente datam do sculo XVIII, se no antes,"e sugerem 
que a cultura tecel tinha uma marca internacional.36
H tambm boas razes para se falar na existncia de uma cultura sapateira, visto que os sapateiros constituam um outro grupo letrado e 

(*) Loilardismo: seita inglesa ou escocesa que adotava os ensinamentos religiosos de John Wycliffe, telogo e reformador do sculo XIV. (N. T.)

autoconsciente. No sculo XVIII, 68% dos sapateiros de Lyon sabiam assinar seus nomes, proporo que no os deixa muito atrs dos tecelos. Deloney invocou esse 
grupo em seu panegrico The Gentle Craft ("O ofcio distinto"), que se l como uma tentativa de se dar forma literria a tradies orais, e Dekker e Rowley recorreram 
a temas de Deloney, para convert-los em peas. Nessas estrias, os sapateiros transformam-se em santos, e filhos de reis no desdenham praticar esse pg. 64 ofcio 
"distinto", isto , nobre. Os sapateiros aparecem como heris tambm na Europa continental; na famosa cano folclrica francesa L petit cordonnier,  o sapateiro 
que fica com a moa to disputada. Sobrevivem canes e estrias germnicas em louvor  sapataria; da mesma forma os skomakarvisa escandinavos, isto , canes de 
trabalho dos sapateiros, e a Pomernia polonesa registra o szewc, dana do sapateiro.37 Tambm se atribuam comportamentos prprios aos membros deste ofcio nobre. 
O esteretipo do sapateiro-filsofo remonta pelo menos at Luciano, no sculo II d.C., mas  fcil encontrar nos incios da Europa moderna casos reais de sapateiros 
que, ao invs de se aferrarem s suas formas de sapato, faziam-se de remendes de heresias. Jakob Boehme, de Grlitz, na Luscia,  sem dvida o sapateiro heterodoxo 
mais famoso desse perodo, seguido por Gonalo Anes Bandarra, portugus do sculo XVI, cujas profecias foram levadas a srio durante sculos, apesar de ter sido 
preso pela Inquisio e ter abjurado de seus erros. Bandarra no foi o nico sapateiro portugus do sculo XVI a se tornar famoso pelas suas opinies religiosas. 
Lus Dias, de Setbal, foi julgado, em 1542, por ter se proclamado messias, e o "santo sapateiro" Simo Gomes fez suas profecias no final do sculo XVI. A heterodoxia 
desses trs homens pode ser explicada pela experincia de "cristos novos", descendentes de judeus; j a dos outros sapateiros, no. Quando o calvinismo se difundiu 
em Cvennes, no sculo XVI, foi atravs de sapateiros. A Inglaterra tambm pode contribuir com seu quinho de exemplos: John White, de Rayleigh, Essex, que declarou 
ser so Joo Batista, em 1586; Samuel How, o sapateiro-pregador que publicou The Sufficiency of the Spirits Teaching ("A suficincia do ensinamento espiritual", 
1639); Jacob Bauthumiey, de Leicestershire, que era um ranter\ Nicholas Smith, de Petworth, em Sussex, que publicou suas Wonderful Prophecies ("Profecias maravilhosas") 
em 1652; e, evidentemente, o quacre George Fox. Em Viena, nos anos 1790, trs sapateiros faziam parte de um grupo que negava a divindade de Cristo.38 Tambm podem-se 
encontrar sapateiros na vanguarda de movimentos polticos, como o "capito Remendo" (Nicholas Melton), lder do levante de Lincolnshire, em 1536, e os 41 cordonniers 
entre os 514 sans-culottes militantes do Ano II (1793), estudados por Albert Soboul.39 O que os sapatos tm a ver com heresias e revolues? Talvez seja simplesmente 
porque essa atividade sedentria oferecia tempo livre para refletir sobre a vida  era o equivalente urbano do pastoreio de carneiros. 
Poderamos continuar a percorrer a lista de guildas, e no esgotaramos as complexidades da cultura do arteso. As guildas eram dominadas pg. 65 pelos mestres dos 
ofcios, mas os oficiais e aprendizes tambm tinham suas organizaes e tradies. Os oficiais franceses, por exemplo, tinham os seus compagnonnages ou devoirs, 
cujos membros ativos consistiam principalmente de solteiros entre dezoito e 26 anos de idade. O historiador da economia h muito tempo se interessa por esses grupos 
enquanto prottipos de sindicatos que por vezes organizavam greves, como o "desafio corajoso" dos tecelos londrinos, em 1768. Do ponto de vista do historiador da 
cultura,  mais importante dizer que esses grupos eram sociedades secretas com ritos de iniciao e mitos a respeito dos seus fundadores, formando uma "cultura fechada" 
ao lado da cultura popular, como um historiador francs recentemente colocou. Assim, os oficiais de impressores de Lyon, no sculo XVI, pertenciam  sociedade dos 
Griffarins, com um rito de iniciao secreto, apertos de mo, senhas e juramentos. Em Paris, uma srie de compagnonnages praticava rituais semelhantes, e foram condenados 
por dez doutores da faculdade de teologia, em 1655. Importante para os oficiais franceses era o tour de France, o costume de que eles deviam de fato "viajar" ou 
percorrer o pas por rotas mais ou menos estabelecidas, sabendo que seriam bem recebidos entre os colegas de ofcio, onde quer que fosse. Essa instituio foi certamente 
um incentivo a uma cultura nacional dos oficiais.40
Os compagnonnages no se restringiam  Frana. Na Inglaterra, Thomas Gent, um oficial impressor, descreveu como foi sua iniciao numa estalagem em Blackfriars, 
por volta de 1713, que incluiu "golpear-me ajoelhado, com uma espada de lmina larga; e derramar cerveja na minha cabea", e lhe dar o ttulo de "conde de Fingall". 
Na Alemanha, as migraes dos oficiais, que eram obrigatrias e duravam de trs a quatro anos, esto muito bem documentadas; Hans Sachs, por exemplo, conta-nos que 
entre 1511 e 1516 ele foi a Innsbruck, no sul, a Aachen, no oeste, at Lbeck, no norte, e ento retornou a Nuremberg. As perambulaes dos oficiais poloneses do 
sculo XVII levavam-nos  Bomia, Alemanha e Hungria. Sobreviveram vrias canes de oficiais alemes desse perodo, incluindo descries especficas de cenas cotdianas, 
que os suecos chamam de Veckodagsvisa, sobre o trabalho que no tinham feito a cada dia da semana. Um exemplo hngaro do gnero  que no consegui datar  diz:

Vasrnap bort iszom,
Htfn nem dolgozom.
J kedden lefekudni,
Szeredn felkelni.
Cztrtk gvgvulni.pg 66
Pnteken szmolni,
Hej! Szombaton krdezni,
Mit fogunk dolgozni?

(Domingo bebo vinho, / Segunda no fao nada. / Tera  bom para descansar, / Quarta para levantar. / Quinta para recuperar, Sexta para fazer as contas, / Ei! Sbado 
para perguntar, / O que temos para trabalhar?)41

Aos oficiais deveramos talvez somar os pedreiros, e mesmo os mestres do seu ofcio. Como os pedreiros passavam de emprego para emprego, sua unidade de organizao 
no era a guilda da cidade, mas a "loja",* a oficina montada no local da construo. Como uma guilda, os pedreiros tinham seus santos padroeiros, em especial os 
"quatuor coronati" (quatro pedreiros romanos que foram mrtires do cristianismo primitivo); mas, sob outros aspectos, a organizao dos pedreiros se parecia mais 
com a dos oficiais do que dos mestres  eles iniciavam os membros novos com rituais assustadores, faziam-lhes jurar sigilo e ensinavam sinais secretos de reconhecimento 
mtuo, ritual transmitido pelos pedreiros profissionais para os pedreiros-livres "especulativos" (isto , maons) que comeavam a fundar suas prprias lojas no sculo 
XVIII. Existiam tambm rituais para as fundaes de uma nova construo. Uma balada bastante conhecida da Europa oriental (Kelmen ou Manole, o pedreiro) registra 
a crena de que esse ritual por vezes inclua sacrifcios humanos. Os pedreiros tambm tinham um jargo prprio, registrado no sculo XIX, mas que provavelmente 
existia muito antes.42
Finalmente chegamos aos aprendizes. Existem provas de que s vezes atuavam como um grupo autoconsciente, at mesmo como um grupo   formalmente organizado. Em Londres, 
dizia-se que eram mais propensos a ir a teatros e provocar tumultos  ao grito de "cacetes" (clubs)  do que os artesos adultos. Alguns dos livretes populares ingleses 
pareciam se destinar aos aprendizes; pelo menos, satisfaziam s fantasias naturais desse grupo. Assim, uma balada chamada The Honour of a London Prentice ("A honra 
de um aprendiz de Londres") corrente no sculo XVIII e, provavelmente, muito antes, conta-nos de um aprendiz da poca da rainha Elizabeth que luta num torneio e 
se casa com a filha de um rei. Tendo em conta o grau de alfabetizao dos artesos franceses e a popularidade dos romances de cavalaria em livretos pg. 67 populares 
do outro lado do Canal,  curioso que no existam estrias equivalentes na Frana. Na Inglaterra, de qualquer forma, parece conveniente falar no s da "cultura 
do arteso", mas tambm da "cultura do aprendiz", uma forma inicial da cultura do jovem.43
 fcil exagerar e se deixar tentar pelo impulso de subdividir. No podemos esquecer que os aprendizes se tornavam oficiais e at, s vezes, mestres; que os mestres, 
oficiais e aprendizes trabalhavam juntos na oficina, conversando e cantando enquanto trabalhavam; que as diversas guildas da cidade cooperavam entre si durante as 
grandes festas. Um outro fator que unia a cultura artes e a cultura urbana, separando-as da cultura camponesa, era a alfabetizao. Os habitantes da cidade tinham 
oportunidades muito maiores de aprender a ler e escrever do que os camponeses, visto que tinham mais acesso a mestres-escolas. Tinham mais contato com textos do 
que os camponeses, seja atravs de livros, cartazes ou pichaes. As representaes nas cidades, em Londres, por 
(*) Lodge: Aqui o autor joga com dois sentidos da palavra, o de alojamento.
exemplo, ou em Granada, muitas vezes incluam personagens segurando cartazes explicativos, que permitia a compreenso das imagens mais incomuns. Em Roma, do incio 
do sculo XVI em diante, eram colados periodicamente versos satricos na esttua de "Pasquino", para que os passantes os lessem e repetissem.44

OS ANDARILHOS
Agora talvez valha a pena parar e fazer um levantamento. Afirmamos que a cultura popular desse perodo estava longe de ser homognea; que a cultura do arteso e 
a cultura do campons divergiam de muitas maneiras; que a cultura do pastor e a do mineiro diferiam da do agricultor. O quanto diferiam  a questo mais importante 
e mais difcil de se responder. No se devem exagerar as diferenas mais pitorescas. Os mineiros tinham os "seus" santos, suas canes, suas peas, danas e lendas, 
mas eles eram selecionados dentre o repertrio comum da cultura popular. Uma devoo especial a santa Ana, por exemplo, s tem sentido dentro do contexto de uma 
devoo mais geral pelos santos e, de qualquer forma, os mineiros no monopolizavam santa Ana. A idia de Cristo como "o cordeiro de Deus" ou "o bom pastor", ou 
a frase "ele por as ovelhas  direita, e os cabritos  esquerda" (Mateus 25, 33) podiam ter um significado especial para os pastores, mas esse significado especial 
dependia do significado comum dessas ideias na cultura em geral. Para descrever as diferenas entre as canes, rituais ou crenas dos nossos quatro grupos principais, 
o termo pg. 68 "subcultura" talvez seja mais til do que "cultura", pois sugere que essas canes, rituais e crenas no eram totalmente, e sim parcialmente, autnomas, 
diferentes mas no separadas por completo do resto da cultura popular. A subcultura  um sistema de significados partilhados, mas as pessoas que participam dela 
tambm partilham os significados da cultura em geral.45
No sendo urbanos nem rurais, uma srie de grupos profissionais itinerantes tambm formavam subculturas, de carter ainda mais evidentemente internacional do que 
as outras citadas at agora: os soldados, marinheiros, mendigos e ladres.46
Na primeira metade do perodo, os soldados dos incios da Europa moderna formavam um grupo internacional de mercenrios, que pegavam a estrada no inverno, quando 
terminava a estao de campanha, e tambm entre as guerras. Os soldados desengajados (falsos ou verdadeiros) eram reconhecidos como uma categoria  parte de mendigos, 
designados pelos franceses como drilles e pelos italianos como formigotti. Eles podiam ser ladres eficientes, como os bandos de rougets e grisons que atacaram os 
parisienses no incio dos anos 1620. Depois de 1650, os exrcitos mercenrios foram gradativamente substitudos por exrcitos nacionais, incluindo recrutados e voluntrios, 
e os soldados, quando no estavam em campanha, ficavam confinados aos quartis. Distinguindo-se pelos trajes, odiados, temidos  e admirados  pelos civis,  fcil 
perceber como os soldados formavam uma subcultura. Eles estavam  margem da sociedade comum; seu emprego era perigoso; os homens eram arrancados da sua cultura local 
tradicional; um regimento era uma "instituio total", fazendo exigncias ilimitadas aos seus membros. Os soldados tinham a sua gria prpria e canes para cantar 
em marcha ou em campo; canes de batalha, canes de despedida, canes de recrutamento (como os verbunkos do Imprio Habsburgo no sculo XVIII), canes de desmobilizao, 
canes que exprimiam o orgulho pela profisso de solado e canes que exprimiam a desiluso com ela. Pensemos na cano Landsknecht, do sculo XVI, sem butins 
nem soldos ("Es ging ein Landsknecht, ber Feld... Er hat kein Beutel noch kein Geld"), ou na dos hussardos prussianos do sculo XVII, com as mesmas preocupaes 
e rimas:

Wir preussischen Hussaren, wann kriegen wir das Geld?
Wir mssen ja marschieren ins weite, weite Feld ...
Und wer sich in preussische Dienst will begebn,
Der soll sich sein Lebtag kein Weibel nicht nehmn... pg. 69

(Ns, hussardos-prussianos, quando conseguiremos dinheiro? / Bem temos que marchar no vasto, vasto campo... / E quem quer entrar no servio prussiano / No pode 
se casar por toda a sua vida...)

Como a cultura dos mineiros e marinheiros, a cultura dos soldados era uma cultura de homens sem mulheres (mais ou menos). Foi, por acaso, o adeus de um soldado, 
uma cano escrita para os soldados do regimento de Wrttemberg, mandados para a frica do Sul em 1787, que inspirou Arnim a compilar o Wunderhorn.47
A subcultura do marinheiro era ainda mais distinta do que a do soldado, decerto porque as tripulaes viviam ainda mais isoladas da cultura popular comum do que 
os regimentos. Todo mundo conhece as canes do mar, cantadas pelos marinheiros durante o trabalho. Nos anos 1480, o frei Felix Fabri descreveu as canes de marinheiros 
como um dilogo "entre algum que canta e manda e os trabalhadores que cantam em resposta". O autor annimo do Complaynt of Scotland ("Lamento da Esccia", 1549) 
menciona a viso de uma galeaa e as ordens do mestre para que os marinheiros puxassem a bolina:

...than ane of the marynalis began to hail and to cry, and al the mary-
nalis ansvert of that samyn sound, hou hou. pulpela pulpela. boulena
boulena. darta darta, hard out steif, hard out steif. afoir the vynd, afoir
the vynd. god send, god send. fayr vedthir, fayr vedthir...

(...ento um dos marinheiros comeou a saudar e a gritar, e todos os
marinheiros responderam com o som: puxa puxa, gente a gente a bolina
bolina, inclina o gurups, inclina o gurups,  frente o vento,  frente o
vento, deus d, deus d. bom tempo, bom tempo...)

No fica claro se esse dilogo era gritado ou cantado. Outra vez, quando o poeta portugus Cames, do sculo XVI, descreve o levantar da ncora (Lusadas 2, 18), 
 "com a nutica grita costumada". De qualquer modo, na forma "clssica" da cano dos marinheiros, o mestre no canta ordens, mas canta uma cantiga, e o coro no 
repete as palavras do mestre, mas canta um refro, como nesta cano martima portuguesa para o levantar da ncora:

Mestre:
A grande nau Catharineta
Tem os seus mastros de pinho:

Coro:
Ai l, l, l,
Marujinho bate o p, pg. 70
Mestre:
O ladro do dispenseiro
Furtou a rao do vinho:
Coro:
Ai l, l, l,
Marinheiro vira  r.

 de se acrescentar que o lder da cantiga estava tradicionalmente autorizado a improvisar como quisesse e a insultar os oficiais impunemente. Essa forma de dilogo 
entre lder e coro pode ter sido extrada de antigas canes de trabalho africanas, e nesse caso isso ilustraria as influncias exticas que ajudaram a diferenciar 
a subcultura do marinheiro.48
Os marinheiros se distinguiam de vrios modos dos homens de terra firme. Em primeiro lugar, pelas roupas; o marinheiro gascao do sculo XVI podia ser reconhecido 
pelo seu bon vermelho, o marinheiro ingls do sculo XVIII pelo seu rabo-de-cavalo, sua camisa xadrez e, acima de tudo, nessa poca, sua cala. Os marinheiros tambm 
eram identificveis pela sua linguagem, em que termos tcnicos, grias e pragas se multiplicavam para formar uma lngua particular. Termos como "espicha", "lais" 
ou "vela da gvea maior" formavam um sistema de significados partilhados entre os marinheiros do qual estavam excludos os homens de terra firme, criando uma solidariedade 
dentro da subcultura. Essa linguagem particular tende a ser apresentada pelos de fora com uma pitada de zombaria, como quando Ned Ward descreve os velhos lobos-do-mar 
ou tarpaulins ("chapus de oleado") nas tavernas londrinas, conversando em "dialeto" martimo e reclamando que o caneco no "tem lugar para carga".49
Os marinheiros tambm tinham seus rituais prprios, como o batizado dos barcos ou libaes lanadas ao mar em pontos perigosos da viagem (os marinheiros gregos e 
turcos jogavam po ao mar quando passavam ao lado de Lectum, perto de Tria), ou a simulao de batismos ou de fazer a barba de quem estivesse cruzando o Equador 
pela primeira vez, atravessando o cabo Kullen (em guas dinamarquesas) ou o cabo Raz (na Bretanha). Os marinheiros tinham o seu folclore prprio, com destaque especial 
s sereias (tidas como figuras sinistras) ou navios-fantasmas, como o "Holands Voador", uma verso martima da "Caada Selvagem", onde se vem fantasmas cavalgando 
pelos ares. Eles tinham sua magia prpria, como a de assobiar para fazer o vento soprar; sua arte prpria, como arcas martimas pintadas ou peas de madeira de mangue 
entalhadas (as miniaturas de navios em garrafas pg. 71 remontam apenas a meados do sculo XIX, com a produo em massa de garrafas) e suas danas prprias, como 
o hornpipe, fcil de se danar sozinho num espao pequeno. Eles tinham seu ritmo prprio de trabalho e lazer, com longos intervalos de tdio e frustrao crescente 
a bordo (como os pastores e prisioneiros, tinham tempo livre para fazer entalhes elaborados), alternados com perodos curtos e violentos de diverso em terra. Se 
a disposio para rixas no era caracterstica exclusiva deles, j o seu andar gingado certamente era. Os marinheiros frequentemente eram letrados, pelo menos na 
Marselha do sculo XVII (50%, comparados aos 20% dos camponeses homens), e tinham seus almanaques prprios, com informaes sobre as mars cheias e as prumadas em 
diversos ancoradouros. Eles tinham suas estalagens prprias nos portos e suas prprias confrarias, muitas vezes dedicadas a so Nicolau, como em Lbeck e Riga. No 
admira muito encontrar clrigos especialmente empenhados em penetrar na subcultura dos marinheiros, da mesma forma como faziam no caso dos mineiros. John Ryther, 
de Wapping, dito "o pregador dos homens do mar", adotou o texto sobre Jonas e publicou os seus sermes como A Plat for Mariners ("Um mapa para marinheiros", 1675). 
John Flavel, ministro em Dartmouth, tambm se concentrou no pblico marinheiro, com a sua Navigation Spiritualised ("Navegao espiritualizada", 1682), onde ele 
comparava o corpo a um navio, a alma  sua mercadoria, o mundo ao mar, e o cu ao porto para onde o marinheiro precisa se dirigir com orientao.50
Novamente devemos ter cuidado em no traar com excessiva nitidez os limites da subcultura. No eram apenas os marinheiros que cantavam canes do mar, e no eram 
apenas canes do mar que cantavam os marinheiros. Os pescadores viviam em aldeias e viam suas mulheres com mais freqncia do que os marinheiros, mas ainda partilhavam 
em boa medida a sua cultura martima. Tambm batizavam os barcos, novos (na Bretanha, o barco tinha padrinho e madrinha). Pescadores e marinheiros tinham a mesma 
preocupao com tempestades e naufrgios, e, se estavam em perigo, faziam votos nos mesmos altares, como Nossa Senhora de Bonaria, na Sardenha, ou Notre Dame de 
Bon Port, perto de Antibes. Seus provrbios derivavam da mesma experincia. O provrbio ingls "prepare o feno enquanto o sol brilha" (isto , aproveite a oportunidade 
enquanto  tempo) tem um sabor martimo em holands: "Tem que se navegar enquanto o vento est a favor" (men moet zeilen, terwijl de wind dient). Ademais,  difcil 
saber se se incluem ou se excluem os barqueiros de grandes rios, como o Danbio, o Volga e o Vstula. Eles tambm viviam uma vida diferente dos homens de terra firme 
e desenvolveram uma linguagem particular. A gria pg. 72 dos barqueiros do Vstula foi registrada no sculo XVII por um poeta polons: ela tem um sabor antes germnico. 
O nome de um aprendiz de piloto era "Fritz", e lad ("terra") designava o banco do rio.51
A mais diferenciada entre todas as subculturas populares era a dos mendigos e ladres, reconhecida e evocada na literatura picaresca, notadamente em Guzmn de Alfarache, 
de Alemn, e na "novela exemplar" de Cervantes, Rinconete y Cortadillo. Os valores dos ladres e mendigos profissionais (principalmente os falsos) eram necessariamente 
diferentes dos do mundo normal que eles exploravam. Essa separao ficava nitidamente marcada na linguagem. Os mendigos e ladres tinham seu calo ou jargo prprio, 
termos que se referiam  linguagem particular desse grupo social, antes de virem a significar algum tipo de gria; e muito a propsito, pois o jargo de uma subcultura 
criminosa  necessariamente mais autoconsciente, mais cuidadosamente deliberado para excluir elementos de fora, do que os jarges de outros grupos profissionais. 
Na gria dos ladres do sculo XV, na Itlia, registrada pelo poeta Luigi Pulci, uma moa era pesce ("peixe"), a estrada era polverosa ("poeirenta"), os florins 
eram rughi ("rugas"), e assim por diante. Na Londres elisabetana, cony ("coelho") era uma vtima, cony-catcher ("apanhador de coelhos") era um trapaceiro de confiana, 
prigger of prancers ("picador de empinadores") era um ladro de cavalos, um nip roubava as bolsas, cortando-as dos cintos a que vinham presas, e no tinha nada a 
ver com um foist que pilhava bolsos.52 Na Espanha, a especializao parece ter sido ainda maior, e Garcia, um contemporneo da poca, distingue entre treze tipos 
de ladres, como os devotos, que s agem em igrejas, e os mayordomos, que s trapaceiam estalajadeiros. Tal diviso de trabalho sugere um alto grau de organizao, 
e Garcia chega a descrever a "repblica" dos ladres e gatunos, com seu chefe, sua hierarquia e suas leis. Na poca, era corrente a idia de guildas de ladres, 
com seus aprendizes e mestres. Cervantes construiu Rinconete y Cortadillo em torno dessa idia, ao passo que dois contos populares da coletnea dos Grimm, os de 
nmero 129 e 192, referem-se a mestres ladres e seu orgulho profissional. Existe uma estria parisiense do sculo XVII sobre a forma como um rapaz "passa a mestre" 
entre os cortadores de bolsas, desempenhando uma operao difcil que lhe fora imposta pelos mais velhos.  difcil determinar se essas guildas realmente existiram; 
se no existiram, seria necessrio invent-las, para satrizar o mundo respeitvel e ilustrar o lugar-comum do "mundo virado de cabea para baixo". Entretanto, os 
ladres realmente tinham o seu rito de iniciao prprio, conhecido na Londres elisabetana como stalling to the rogue, investidura na dignidade pg. 73 da malandragem; 
como outras iniciaes de artesos, o rito inclua o derramamento de um quarto de cerveja sobre a cabea do candidato  admisso. Eles tinham suas prprias instituies 
de treinamento; o escrivo Fleetwood, de Londres, escreveu a William Cecil, em 1585, relatando a descoberta de uma "escola montada para ensinar rapazinhos a cortar 
bolsas", perto de Billingsgate. Esse extico mundo criminal era uma ddiva para os escritores profissionais dos incios da Europa moderna, a quem devemos a maior 
parte do que sabemos sobre ele. Nem sempre  fcil determinar se um certo detalhe  fruto da imaginao frtil do criminoso ou da pessoa que escreveu sobre ele. 
Mas, se se pode duvidar dos detalhes especficos, j no  o caso quanto  existncia da subcultura criminosa.53

VARIAES RELIGIOSAS E REGIONAIS
Os mendigos e ladres podem ser considerados antes elementos de uma "contracultura" do que de uma subcultura, no sentido de que no s diferiam do mundo  sua volta, 
mas tambm o renegavam. O mesmo vale para algumas seitas crists, notadamente os anabatistas na Alemanha e Pases Baixos, os huguenotes na Frana, os quacres na 
Inglaterra, "povo peculiar" cuja contracultura se mostrava de maneira particularmente evidente, afetando sua linguagem e indumentria, e os "velhos crentes"* na 
Rssia. Olhando-se a Europa como um todo, entre 1500 e 1800, as diferenas religiosas esto entre as diferenas culturais mais impressionantes. Em 1500, a Europa 
crist j estava dividida entre catlicos e ortodoxos; logo viria a se dividir ainda mais, com o surgimento do protestantismo. Algumas das diferenas entre a cultura 
catlica e a protestante sero discutidas adiante (p. 238 ss.).
Em todo caso, alguns europeus do perodo no eram cristos. Havia os judeus, principalmente nas cidades do Sul da Espanha e do Leste da Europa, e havia os muulmanos, 
mais ou menos nas mesmas reas, cada um com seus valores e rituais prprios. Os judeus da Espanha e da Europa oriental tinham seus menestris, suas canes folclricas, 
suas peas, como as peas de Ester registradas no sculo XVI. Os judeus da Espanha adotaram baladas da cultura que os rodeava, mas adaptaram-nas para seu uso prprio, 
expurgando as referncias crists.
(*) No original Old Believers: os que se recusavam a aceitar as reformas da Igreja russa do sculo XVII.Pg. 74 
Os muulmanos da Bsnia falavam uma lngua parecida com a dos srvios ortodoxos e cantavam picos hericos semelhantes sobre as guerras entre cristos e muulmanos, 
mas, como observou Karadzic ao coletar essas canes, "nas verses deles, geralmente era o seu prprio povo que vencia".54 Os da Espanha foram convertidos  fora 
depois da tomada de Granada pelos cristos, em 1492, mas isso no apagou sua cultura particular, que se manteve slida por todo o sculo XVI, e mesmo depois. Os 
mouros praticavam secretamente sua religio, guardando a sexta-feira como dia de descanso, jejuando durante o Ramada e, depois, correndo pelas ruas e atirando gua 
perfumada e laranjas, como os cristos, durante o Carnaval. Eles tinham os seus homens santos, ou faquires, e seus amuletos, com versos extrados do Coro. Estavam 
proibidos de falar, ler ou escrever em rabe, mas isso no os deteve; e, quando falavam espanhol, era um espanhol caracterstico. Tomavam um nmero de banhos muito 
maior do que os cristos por razes religiosas, e suas mulheres continuavam a usar vu. Apesar das denncias do clero, continuavam a danar a zambra. Partilhavam 
com seus vizinhos cristos o gosto pelas baladas e romances de cavalaria, mas nas suas verses, como na Bsnia, eram os muulmanos hericos que venciam.55
Judeus e mouros, evidentemente, constituam minorias religiosas e tnicas, e suas culturas caractersticas no podem ser analisadas em termos apenas religiosos. 
Igualmente caracterstica era a cultura de uma outra minoria tnica, os ciganos, muitas vezes designados, nesse perodo, como "egpcios", "sarracenos" ou "bomios", 
que apareceram na Europa no comeo do sculo XV.* Gente respeitvel freqentemente os associava aos mendigos e ladres, mas os ciganos mostram ter se conservado 
como grupo distinto do resto, tanto nos costumes como na linguagem. Nos sculo XVI e XVII, j praticavam as atividades pelas quais so conhecidos atualmente. Os 
homens eram funileiros ambulantes, comerciantes de cavalos, amestradores de ursos e msicos, enquanto as mulheres danavam e liam a sorte atravs das mos. Eram 
suspeitos de magia, pactos com o demnio e ignorncia ou recusa da verdadeira religio. "Eles no sabem o que  a Igreja e no entram nela a no ser para cometer 
sacrilgio. No conhecem nenhuma orao... comem carne o tempo inteiro, sem respeitar a sexta-feira nem a Quaresma." Contudo, o interesse dos ciganos por artes como 
dana e 
(*) Ainda hoje a palavra utilizada em ingls para designar cigano  gipsy, derivada diretamente de egyptian (egpcio). pg. 75
canto contribuiu para uma certa interao entre eles e pessoas mais sedentrias. Os msicos ciganos eram populares na Hungria e outros lugares da Europa central 
durante o sculo XVIII e deixaram marcas indelveis na msica popular da regio.56
As variaes mais evidentes na cultura popular foram deixadas quase por ltimo  as variaes sexuais e regionais.
H muito pouco a se dizer sobre as mulheres, por falta de provas. Tanto para os antroplogos sociais como para os historiadores da cultura popular, existe um "problema 
das mulheres". A dificuldade de reconstruir e interpretar a cultura dos assim chamados inarticulados  aqui mais agudo; a cultura das mulheres est para a cultura 
popular assim como a cultura popular est para o conjunto da cultura, de modo que  mais fcil dizer o que ela no  do que o que ela . A cultura das mulheres no 
era a mesma que a dos seus maridos, pais, filhos ou irmos, pois, ainda que muitas coisas fossem partilhadas, tambm existiam muitas das quais as mulheres estavam 
excludas. Elas estavam excludas das guildas e, freqentemente, tambm das irmandades. O mundo das tavernas tampouco era para elas. As variaes profissionais entre 
as culturas dos agricultores e pastores, mineiros e marinheiros poderiam ter um significado relativamente pequeno para as suas mulheres. Pelo menos na Europa oriental, 
as mulheres tinham suas canes prprias. Uma coletnea de canes populares da Galcia distingue entre "canes de mulheres" (piesne zenskie), principalmente cantigas 
de amor, e "canes de homens" (piesni meskie), principalmente baladas. Karadzic fez a mesma distino para a Srvia, embora tenha notado que os rapazes s vezes 
cantavam o que ele chamou de "canes de mulheres". As mulheres das aldeias francesas se reuniam para as veilles, na qual fiavam, cantavam e contavam estrias (com 
ou sem visitantes masculinos). As mulheres tinham suas prprias canes de trabalho, tais como canes de fiar, canes de empastamento da l (para o encolhimento 
do tecido) e canes de moer cereais. Se h algo de claro nessa rea obscura  o fato de que a cultura das mulheres era mais conservadora do que a dos seus homens, 
vindo a se distinguir cada vez mais dela com o decorrer do tempo. As mulheres eram muito menos letradas do que os homens. Em Amsterdam, em 1630, 32% das noivas sabiam 
assinar o nome, contra 57% dos noivos, e na Frana como um todo, no final do sculo XVII, cerca de 14% das noivas sabiam assinar, contra 29% dos seus noivos. Assim, 
a palavra escrita somava-se  lista de itens culturais no partilhados pelas mulheres, e elas comearam a superar os homens como guardis da tradio oral mais antiga. 
Quando as mulheres liam, eram tipos especficos de livros, Pg. 76 ou, para nos manter mais adstritos s evidncias, os escritores e impressores da Inglaterra e 
Pases Baixos destinavam certos livros a um pblico feminino. A religio, em particular a religio exttica, concedia s mulheres um meio de auto-expresso. Podem-se 
encontrar mulheres pregadoras entre as seitas da Guerra Civil inglesa e os huguenotes da Cvennes.57
Se  muito pouco o que se pode dizer acerca das variaes por sexo na cultura popular, o contrrio vale para as variaes regionais. As provas esto por todos os 
cantos, quer se olhe para a cultura material ou imaterial, objetos artesanais ou apresentaes. A cultura popular era percebida como cultura local. A cada terra 
el seu s ("a cada terra, o seu uso"), dizia o provrbio catalo. Era a regio, a cidade ou mesmo a aldeia o que determinava a lealdade entre aquelas pessoas; essas 
unidades formavam comunidades fechadas, com esteretipos hostis contra os forasteiros, relutando em admitir novas pessoas ou novos costumes. A guerra dos camponeses 
alemes de 1525 fracassou principalmente porque os grupos de camponeses de regies diferentes no cooperaram o suficiente entre si. No final do sculo XVII, um proco 
de Sologne descreveu seus paroquianos da seguinte forma: "Eles s amam sua prpria regio (leur pays) ... no esto interessados nas novidades ou condutas de outras 
partes, mas mantm-se totalmente afastados de tudo o que ocorre no resto do mundo".58 Ele bem podia estar falando de muitas partes da Europa.
A variao regional na cultura era de fato muito grande, e remontava h muito tempo. A mitologia cltica no havia desaparecido da Esccia ou Irlanda, do Pas de 
Gales ou da Bretanha, durante esse perodo: o culto s fontes de gua se mantinha, e na Cornualha ainda se falava uma lngua celta. Os bretes se orgulhavam dos 
seus santos locais, como Nonna e Corentin, muitos deles desconhecidos em outros lugares e que podiam ser divindades pr-crists balizadas. Os moldes clticos de 
povoamentos dispersos diferenciavam o Pas de Gales do sculo XVI de sua vizinha Inglaterra. Da mesma forma, a mitologia norueguesa havia sobrevivido em partes da 
Escandinvia. Nos Alpes escandinavos e na Lapnia, o deus nrdico Tor ainda era venerado no sculo XVIII, e guardava-se a quinta-feira como dia santo. Mitos noruegueses 
sobreviveram na Escandinvia, sob a forma de baladas tradicionais. Na Litunia (que se tornou oficialmente crist apenas no sculo XIV) e na Rssia, os cultos pr-cristos 
eram extremamente evidentes. Em 1547, dizia-se que os lituanos ainda adoravam os seus tradicionais deuses Perknas, Laukosargas e Zemepatis; em 1549, o embaixador 
imperial Herberstein observou que, na regio russa de Perm, pg. 77 "ainda se encontram idlatras nas florestas" e que o velho deus do trovo, Perun, ainda era reverenciado.59 
(As florestas, assim como as montanhas, so barreiras eficientes contra a difuso de novas crenas e costumes.) Tais tradies tnicas duradouras contriburam para 
as variaes regionais, mas no foram sua nica causa. A regio constitua uma unidade cultural por razes ecolgicas, visto que o ambiente fsico diferente favorecia, 
se  que no impunha, modos diferentes de vida. Italianos construam em pedra, holandeses em tijolos e russos em madeira, por razes suficientemente bvias. As baladas 
de fronteira inglesas e escocesas refletem o modo de vida de uma comunidade de fronteira, com sua nfase sobre gados e parentes, rixas e incurses. Quando os contos 
folclricos migravam de uma para outra regio, eles podiam ser modificados de modo a torn-los mais significativos, introduzindose referncias a atividades locais. 
Num conto popular grego sobre so Nicolau, ele vinha em auxlio dos marinheiros em aflio; na verso corrente na Rssia, ele ajudava um campons cuja carroa atolara.60
A importncia da regio para o estudo da cultura popular foi formulada do modo mais preciso e magistral por um dos grandes folcloristas do nosso sculo, Carl von 
Sydow, que adotou dos botnicos o termo "ecotipo", referente a uma variedade botnica hereditria adaptada a um certo meio pela seleo natural, e aplicou-o em seus 
estudos de contos folclricos. Ele sustentava que uma determinada tradio "sofre um processo de unificao em sua prpria rea atravs do controle mtuo e influncia 
recproca dos seus portadores", de modo que se forma um ecotipo de conto popular. Ele ressaltou a importncia das barreiras para a difuso. Existem barreiras lingusticas, 
que sustam em particular a difuso de poesias; e existem barreiras polticas, fronteiras que sustam o movimento dos portadores de tradies. Os aldees, observou 
Von Sydow, no aprendem com os vizinhos, a quem muitas vezes so hostis; esta  uma terceira barreira  difuso. Duas crenas podem ter a mesma funo e assim se 
excluem mutuamente; onde uma delas est presente na tradio popular, ela forma uma quarta barreira, pois a outra ento  suprflua, e, se  introduzida, no se 
popularizar.61
Essas questes so importantes, e os historiadores provavelmente vo consider-las bastante plausveis. No entanto, no esgotam o conjunto. Um dos argumentos centrais 
do presente livro  e sua nica justificativa   o de que o nvel regional no  o nico nvel em que se deve estudar a cultura popular.
O conceito "regio", na verdade,  menos preciso do que parece. Pg. 78  possvel enumerar as regies em que se divide a Europa? Se no  possvel, est lanada 
a dvida sobre a eficincia das barreiras. As unidades mais evidentes a se tomar so as provncias, como as antigas provncias francesas, antes da introduo dos 
dpartements, no final do nosso perodo. A Bretanha  uma regio? Ou so duas regies, a Alta Bretanha e a Baixa Bretanha? A diviso entre as duas no foi meramente 
administrativa, e sim cultural: a Alta Bretanha, no sculo XVII, falava francs, e a Baixa Bretanha falava breto. No entanto, podem-se encontrar ecotipos num nvel 
mais bsico do que este. Na Baixa Bretanha, era possvel distinguir entre o dialeto breto falado na Cornualha e o corrente em Morbihan ou no Finistre. A antiga 
Cornualha bret era uma "regio"? Ou ela pode ser decomposta nas aldeias que a constituam? Existe alguma razo para se parar de dividir, antes de se chegar  famlia 
ou mesmo ao indivduo? Seria o mesmo caso se adotssemos outros critrios ou tomssemos outras regies. A arte popular da Noruega e Sucia do sculo XVIII se destaca 
caracteristicamente da arte do resto da Europa. Se observarmos mais detalhadamente a Sucia, veremos que  possvel distinguir entre a pintura da Sucia central 
(em especial Dalarna e Hlsingland) e a do sul (em especial Smaland e Halland). Observando Dalarna mais cuidadosamente a encontramos dividida em duas regies, Rttvik 
e Leksand... Os trajes dos camponeses moravianos do sculo XIX distinguiam-se dos da Eslovquia vizinha. Mas a Eslovquia moraviana formava uma unidade prpria, 
subdividida em nada menos que 28 "distritos de trajes".62 Parece termos voltado ao problema de Toynbee,  impossibilidade de enumerar culturas ou subculturas, por 
serem sistemas vagamente delimitados.
Assim como as provncias podem ser decompostas em unidades culturais menores, da mesma forma podem ser proveitosamente fundidas em unidades maiores, como naes 
e at grupos de naes. A lngua constitui uma barreira,  verdade, mas  uma barreira que pode ser rompida. As baladas podiam seguir as rotas comerciais da Escandinvia 
 Esccia, ajudadas pelo fato de que as lnguas no tinham estruturas to diferentes entre si, de modo que alguns lugares-comuns das baladas podiam ser adotados 
com alteraes mnimas. Assim, o meio-verso Op staar" ou "Op stod" podia ser vertido como "Up then started9' ou "Up and spake; Ind saa kom podia virar "In then 
came"; "den liden Smaadreng" podia ser traduzido como "his little foot-page. O mesmo vale para algumas frmulas de baladas norueguesas: fazer og fin corresponde 
para os escoceses a fair and fine, baka og bryggie a bake and brew. Pg 79 
As verdadeiras barreiras no so tanto as que separam as lnguas, mas sim os grupos lingsticos; isso  o que nos sugere a difuso de uma parelha de versos subversivos, 
que associamos a John Ball e  revolta dos camponeses de 1381:

When Adam delved and Eve span,
 Who was then the gentleman? 

(Quando Ado cavava e Eva fiava,/ Onde ento o fidalgo estava?)

Essa parelha ficou praticamente restrita s lnguas germnicas, que podiam manter a rima sem alteraes; ela est registrada em alemo, holands e sueco, todos do 
final do sculo XV:

Da Adam retet und Eva span
Wer was die Zeit ein Edelman?

Wie was doe de edelman
Doe Adam graeff ende Eva span?

Ho war tha een dela man
Tha Adam graff ok Eva span?

Ela era menos conhecida nas lnguas eslavas, onde no flua to bem; em polons, por exemplo, ficou:

Gdy Adam z Ewa kopal,
Kto komu na w czas chlopal? 63

(Quando Ado e Eva cavavam, / Quem era ento o campons?)

As estrias podiam viajar ainda mais facilmente. A variao regional visvel s vezes oculta uma unidade subjacente. As pessoas de Cava, no reino de Npoles, eram 
representadas como tolas numa srie de estrias locais, que se suspeitam terem sido propagadas pelos seus rivais da vizinha Salerno. O que seria mais local do que 
isso? No entanto, um levantamento europeu traz  luz estrias sobre os tolos de Beira, em Portugal, de Fnsing, na Baviera, de Mundinga, na Subia, de Ms, na Dinamarca, 
de "Malleghem", em Flandres, ou, para virmos mais perto de ns, de Gotham, em Nottinghamshire. Algumas estrias idnticas correm nessas regies diferentes, como 
por exemplo: "quatro homens carregam o cavalo para no calcar o campo" ou "um cavaleiro leva o saco de comida nas costas para aliviar a carga da sua montaria".64 
As cores locais foram aplicadas a um perfil padronizado. Esse exemplo no  isolado; muitos enredos de baladas e contos populares foram registrados em cantos opostos 
da Europa. Um exemplo famoso  pg. 80 a balada que os holandeses chamam de Heer Halewijn. Ela fala de uma moa que vai com um homem para a floresta, descobre que 
ele tenciona mat-la, mas consegue engan-lo e mata-o com a prpria espada dele. Essa balada  muito conhecida na Alemanha e na Escandinvia, e aparece na Gr-Bretanha 
sob a forma de Lady Isabel and the Elf-Knight ("Lady Isabel e o cavaleiro elfo", Child 4). Ela tambm  conhecida fora da rea de lngua germnica, como na Polnia 
e na Hungria, onde  chamada de Molnar Anna, E ainda a estria da "donzela salva", que inutilmente pede socorro a cada membro de sua famlia e  afinal salva pelo 
seu amado,  conhecida em regies to distantes e com tradies culturais to diferentes quanto a Inglaterra, a Finlndia e a Siclia. Evidentemente,  preciso indagar 
que proporo de seus contos uma determinada regio partilha com outras, mas, nesse campo, ainda est por se fazer uma pesquisa.65
O cristianismo h muito tempo vinha convertendo a cultura europia num conjunto unitrio. As mesmas festas eram celebradas por toda a Europa; os mesmos santos principais 
eram venerados em todos os lugares; espcies semelhantes de peas religiosas eram encenadas. Mesmo os muulmanos foram influenciados pelo cristianismo popular. Na 
Dalmcia do sculo XVIII, os muulmanos recorriam a padres cristos, pedindo um zaps, um pedao de papel com inscries de nomes sagrados, usado como talism no 
turbante ou colocado nos chifres do gado, para proteg-lo. As melodias viajavam de uma ponta a outra da Europa  e mesmo alm , ainda que, nesse percurso, se separassem 
da letra original. Os modelos das casas se repetem sempre que a necessidade deles se repete. A casa de pedra aplia, ou trullo, por muito tempo foi considerada nica, 
mas existem equivalentes seus na Espanha e na Irlanda. Mesmo padres formais, como decoraes geomtricas em arcas de enxoval, podem ser encontrados de um extremo 
a outro da Europa.66
Na verdade, seria um erro determo-nos no extremo da Europa. Um folclorista ilustre acentuou que "as terras da Irlanda  ndia formam uma importante rea de tradio, 
onde se encontram as mesmas estrias". Contos populares rabes, como os relatados em O livro de Simb, e hindus, como os do Panchatantra, circulavam na Europa muito 
antes de 1500. O teatro popular turco tradicional inclua um tipo de pea, orta oiunu, elaborada em torno de dilogos cmicos entre um patro e seu criado bufo, 
em tudo parecidos a Pantalone e Pulcinella.
A festa Holi na ndia, onde os papis so invertidos, os chefes da aldeia so encharcados de gua  ou coisa pior  e tm de montar de costas num asno, , para diz-lo 
de modo leve, "carnavalesca". Sentimo-nos pg. 81 tentados a seguir o exemplo de Jacob Grimm e dos lingistas do incio do sculo XIX e pensar em termos  de uma 
cultura indo-europia67. Ou ser ir longe demais?
Existem pouqussimos estudos srios que podem nos auxiliar a decidir. O que a rea indo-europia tem culturalmente em comum s pode descoberto com uma comparao 
sistemtica com outras partes do mundo, por exemplo, o Japo. A tentativa mais sria feita at agora foi a amostragem etnogrfica do mundo (referente a sociedades 
e tambm a cultura em nossa acepo), de Murdock, que dividia o mundo em seis regies;  ele agrupou a Europa, o Oriente Prximo e a frica do Norte na regio Circum-Mediterrncia
, mais no incluiu a ndia. 68  Para serem convincentes, os estudos sobre a unidade e a diversidade indo-europia tero de ser to rigorosos como a obra de Von Sydow. 
Tero de ser quantitativos, tentando estabelecer a proporo em que uma determinada regio partilha sua cultura com os vizinhos.
Enquanto isso, parece aceitvel limitarmo-nos  Europa, sugerir que o nvel regional no  o nico nvel em que se deveria estar a cultura popular tradicional e 
que talvez seja til falar em subculturas regionais tal como falamos de subculturas profissionais. A separao entre a subcultura e o resto da cultura popular no 
deve ser exagerada em nenhum desses casos. A cultura catal, digamos, tal como a cultura dos mineiros,  uma seleo a partir do repertrio comum, e no algo totalmente 
diferente. No so os motivos e sim a combinao especfica de motivos que permite ao especialista dizer que uma determinada pintura vem de Rttvik e no de Leksand. 
O propsito do presente livro  dizer algo sobre esse repertrio comum, esses elementos a partir dos quais se formaram os padres locais.
Para diz-lo de outra forma: existiu uma grande variao regional na cultura popular dos incios da Europa moderna, mas essa variao era estruturada e coexistia 
com outros tipos de variao. Os folcloristas compilaram atlas de cultura popular a nvel nacional ou regional, um estudioso de baladas identificou sete distritos 
de baladas e os antroplogos dividiram a frica em reas culturais, mas ningum, at onde sei, tentou descrever a geografia cultural da Europa como um todo.69 
Isso  uma tarefa para um livro, no para um pargrafo; no entanto, a forma como poderia se estruturar um tal livro  extremamente relevante para o argumento deste 
captulo.
Uma geografia cultural da Europa teria de ser histrica, voltada para as transformaes de longo prazo. Tambm teria de levar em conta um grande nmero de diferenas 
ou oposies culturais que pg.82 muitas vezes se sobrepem, mas raramente coincidem entre si. Existe o contraste, por exemplo, entre aldeolas e vilarejos; as aldeolas 
predominam ao longo da costa atlntica e entre os eslavos do sul, e os vilarejos nos outros lugares. A vida dos vilarejos  e sobretudo o envolvimento com o comrcio 
 parece ter incentivado a conscincia poltica, desde a Guerra Camponesa alem at a Revoluo Francesa. O tipo de vilarejo irregular e compacto contrasta com o 
vilarejo linear planejado, associado  colonizao de terras ermas. Assim, existe uma geografia da arquitetura vernacular, em parte moldada pela disponibilidade 
de materiais de construo: reas onde predominava a pedra, em torno do Mediterrneo, reas onde predominava a madeira, como na Noruega ou na Rssia, e reas de 
tijolos, que no sculo XVII vinham substituindo a madeira nos Pases Baixos e em outros locais. Existe uma geografia da alfabetizao. Na Frana dos sculos XVII 
e XVIII, a diviso entre o nordeste letrado e o sudoeste relativamente iletrado seguia uma diagonal que saa de Mont-Saint-Michel e ia at o lago de Genebra. Na 
Europa como um todo, no sculo XVIII, havia uma rea de alto grau de alfabetizao no noroeste (Sucia, Prssia, Gr-Bretanha) e uma rea de baixo grau de alfabetizao 
no sul e leste. Os protestantes letrados contrastavam com os catlicos menos letrados e os cristos ortodoxos ainda menos letrados, sobrepondo-se ao contraste entre 
o norte mais frio e escuro, onde as atividades culturais se desenvolviam principalmente a portas fechadas, e o sul mais quente e luminoso, onde a cultura popular 
estava associada ao ar livre,  piazza ou  plaza.70 No sul, a festa de primavera do Carnaval era mais importante; no norte, era a festa de vero da noite de So 
Joo. E havia ainda a diviso lingustica entre romnico, germnico e eslavo, complicada por grupos lingusticos menores, como o celta e o fino-grico. Havia a diviso 
social entre os camponeses a leste do Elba, submetidos  servido nos sculos XVI e XVII, e os camponeses a oeste, que eram relativamente livres.
A seguir, h os contrastes que podem se encontrar em diversas partes da Europa, entre zonas de terras altas e terras baixas, florestas e clareiras, regies costeiras 
e interioranas, reas centrais e fronteirias. Estudiosos das baladas inglesas e escocesas sabem muito bem como elas brotaram das condies de vida na fronteira, 
mas a fronteira entre a Inglaterra e a Esccia era apenas uma entre vrias que tambm estimulavam baladas e vises de mundo hericas. A fronteira entre os Imprios 
Otomano e Habsburgo na Crocia e Hungria constitua um mundo herico em escala menor do que os limites ocidentais, centrais e orientais entre a Inglaterra e a Esccia, 
mas seus valores e canes pg.83 eram semelhantes em muitos aspectos.71 Tambm os cossacos eram uma espcie de homens de fronteira.
O padro formado pela interao de todos esses contrastes pode ser muito grosseiramente resumido como uma distino entre trs Europas: noroeste, sul e leste. Assim, 
a Europa do sul, a Europa mediterrnica falava o romnico, era catlica (com bolses de huguenotes, muulmanos, etc.), com uma cultura ao ar livre, "a casa de pedra 
de quinhentas toneladas" (como Chaunu a designa), baixo grau de alfabetizao (com bolses de alto grau de alfabetizao, na Itlia do sculo XVI) e um sistema de 
valores com grande nfase na honra e desonra.72 Contudo, para entender a cultura de uma comunidade particular,  preciso no s situ-la dentro de uma dessas Europas, 
mas tambm relacion-la aos eixos de contraste que acabamos de descrever. A cultura, digamos, de uma vila de pescadores bretes precisa ser vista como parte, no 
de um, mas de vrios conjuntos: parte da cultura francesa, da cultura martima, da cultura cltica, da cultura catlica, e assim por diante. Sempre que vrios contrastes 
coincidissem, poderse-ia ver uma diferenciao cultural relativamente aguda. Os tecelos huguenotes em Spitalfields, no sculo XVIII, compunham ao mesmo tempo uma 
subcultura tnica, religiosa e profissional, assim como os sapateiros judeus na Europa central. De fato, a Reforma pode ter exercido atrao sobre alguns grupos 
tnicos ou profissionais por reforar seu sentido de identidade coletiva; dificilmente ter sido por acaso que na Transilvnia, onde conviviam trs grupos lingusticos, 
os alemes tenham adotado de modo geral as doutrinas do seu conterrneo Lutero, os hngaros tenham virado calvinistas e os romenos tenham se mantido ortodoxos.

INTERAO
Dada a existncia de grandes e pequenas tradies, por variadas que fossem, nos incios da Europa moderna, era natural que existisse uma interao entre elas. A 
natureza dessa interao tem sido muito discutida. Swift descreveu as "opinies como moda" "sempre descendo dos de qualidade para o tipo mdio, e da para o vulgo, 
onde finalmente elas caem em desuso e desaparecem".73 Os descobridores da cultura popular, como Herder e os Grimm, inverteram essa concepo, julgando que a criatividade 
provinha de baixo, do povo. Os folcloristas na Alemanha do incio do sculo XX, que discutiram essa questo de pg.84 forma explcita e exaustiva, voltaram  concepo 
anterior. Sustentaram que a cultura das classes baixas (Unterschicht) era uma imitao fora de moda da cultura das classes altas (Oberschicht). Imagens e temas, 
canes e estrias gradualmente "rebaixavam", como diziam, para a base da escala social.74
Qual das teorias est certa? O debate se complicou com diferenas de definio, mas se continuarmos a usar os termos "cultura erudita" e "cultura popular" tal como 
foram definidos antes neste captulo, pode-se afirmar com segurana que existia um trfego de mo dupla entre elas. Como disse Redfield, "a grande tradio e a pequena 
tradio por muito tempo se afetaram mutuamente e continuam a faz-lo". Alguns poucos exemplos esclarecero esse aspecto.75
A arte popular oferece uma srie de exemplos bvios de "rebaixamento". Os pequenos proprietrios rurais ingleses do final do sculo XVI e comeo do sculo XVII construram 
casas segundo o estilo da fidalguia local. Na Europa central, no sculo XVIII, existia um barroco campons cerca de um sculo depois do estilo barroco original. 
A arte camponesa da Noruega e Sucia, no mesmo perodo, emprestou motivos aos estilos renascentista, barroco e rococ. Os mveis e entalhes de igrejas eram suas 
principais fontes de inspirao.76
A literatura tambm desceu a escala social. Quando Addison visitou a Itlia ele observou "um costume em Veneza, que eles me dizem ser prprio do povo comum dessa 
regio, de cantar estrofes de Tasso. Elas so postas numa melodia bastante solene, e quando algum comea em qualquer passagem do poeta, o provvel  que outro que 
o ouve por acaso logo lhe responda". O costume  atestado tanto por italianos como por estrangeiros. Em Florena, entre os sculos XIV e XVI, Dante parece ter feito 
parte da cultura popular. Grazzini escreveu um madrigal sobre a morte de uma coruja, que comea:

Nel mezzo del cammin della sua vita
Il mio bel gufo pien d'amore e fede
Renduto ha l'alma ...
(No meio do caminho de sua vida / Meu belo mocho cheio de amor e f / Entregou a alma...)

e que perderia boa parte de sua graa se no se reconhecesse a a pardia a Dante.77 Na Inglaterra, os atores de pantomimas emprestavam versos de peas mais sofisticadas; 
"Ampleforth Play" (pea de Ampleforth) contm fragmentos de Love for Love ("Amor por Amor"), de Congreve, e a "Mylor Play" (pea de Mylor) inclui trechos de Fair 
pg.85 Rosamond ("Bela Rosamunda"), de Addison, assim como peas populares russas do sculo XIX trazem versos de Lermontov e Pchkin. Na Flandres do sculo XVIII, 
peas aldes mostram o gosto por acrsticos, como se o barroco literrio tivesse chegado ao campo aps ter sido abandonado pela cidade.78
Outro exemplo a favor da teoria do rebaixamento  a difuso gradual dos romances de cavalaria. Parece razovel supor que os romances de cavalaria foram originalmente 
criados para a nobreza; eles tratam das aventuras de nobres, apresentam acontecimentos e pessoas do ponto de vista da nobreza e expressam valores aristocrticos. 
Contudo, em 1500, as estrias de Carlos Magno e seus paladinos eram cantadas nas praas de mercado italianas para todos que as quisessem ouvir, e em 1800 os romances 
de cavalaria ficaram entregues aos camponeses, mais particularmente na Siclia. No  fcil saber por que os camponeses sicilianos haveriam de achar as proezas de 
Orlando e Rinaldo to atraentes, mas no foi s na Itlia que os romances de cavalaria tiveram tal apelo. Na Frana, nos sculos XVII e XVIII, cerca de 10% da Bibliothque 
Bleue, composta de livretos populares, consistia dessas obras, com Pierre de Provena, Ogier, o dinamarqus e Os quatro filhos de Aymon entre os ttulos mais populares. 
Pierre de Provena tambm era popular em Portugal, Ogier, o dinamarqus (no admira muito) na Dinamarca, e Os quatro filhos de Aymon na Holanda. Na Inglaterra, as 
aventuras de Guy de Warwick e Bevis de Hampton faziam parte do repertrio dos menestris do sculo XVI, e eram ainda mais acessveis como baladas impressas e romances 
editados em livretos populares.79 As idias religiosas tambm desciam a escala social: as idias de Lutero, Calvino, Zwinglio e tambm as dos seus adversrios catlicos.
Mas a teoria do rebaixamento  tosca e mecnica demais, sugerindo que as imagens, estrias ou idias so passivamente aceitas pelos pintores e cantores populares 
e seus respectivos espectadores e ouvintes. Na verdade, elas so modificadas ou transformadas, num processo que, de cima, parece ser de distoro ou m compreenso, 
e, de baixo, parece adaptao a necessidades especficas. As mentes das pessoas comuns no so como uma folha de papel em branco, mas esto abastecidas de idias 
e imagens; as novas ideias, se forem incompatveis com as antigas, sero rejeitadas. Os modos tradicionais de percepo e inteleco formam uma espcie de crivo 
que deixa passar algumas novidades e outras no. Isso  clarssimo no caso da pintura. Os pintores camponeses suecos adotaram detalhes barrocos, mas a estrutura 
de suas obras se manteve medieval. No caso da religio, Edward Thompson pg.86 levanta o mesmo ponto, ao considerar que os cristos comuns "s aceitam da Igreja 
o tanto de doutrina que possa ser assimilado  experincia de vida dos pobres". Os textos e rituais oficiais podem ser imitados, mas a imitao muitas vezes escorrega 
para a pardia (adiante, ver p. 146 e ss.).80
O outro grande defeito da teoria do rebaixamento  ignorar o trfego na direo oposta, escala social acima. Um exemplo bvio  o da dana. A nobreza adotava regularmente 
animadas danas do campesinato, gradualmente tornava-as mais sbrias, e ento novamente adotava outras. Um caso do final do nosso perodo  a ascenso social da 
valsa. Outro exemplo de "ascenso"  a festa cortes da Renascena. As festas das cortes muitas vezes ocorriam na mesma poca das fstas populares, como o Carnaval 
e os doze dias de Natal. Em alguns casos do inicio do nosso perodo, parece ter sido pequena a diferena entre elas, exceto quanto ao status dos participantes. Ao 
longo do sculo XVI, as festas das cortes tornaram-se mais privadas, elaboradas e formais. Usavam mais acessrios, desenvolveram uma unidade temtica maior e vieram 
a exigir organizadores profissionais, como o mestre de folias na Inglaterra. O "mascaramento" informal se converteu na "mscara" formal. As festas das cortes continuaram 
a trazer as marcas de suas origens populares. O falso rei, "senhor do desgoverno", ainda desempenhava um papel importante, ainda se usavam mscaras e ainda se travavam 
falsas batalhas. Aqui tambm vemos a apropriao e a transformao criativa do que foi apropriado.81
As festas das cortes no so absolutamente o nico exemplo. O grande pico hngaro do sculo XVII, A catstrofe de Sziget, de Mikls Zrinyi, era um poema de dupla 
tradio: a tradio do pico literrio  maneira de Tasso, a quem Zrinyi muito admirava, e a do pico oral popular dos croatas  Zrinyi tinha propriedades na Crocia 
e falava croata, alm do hngaro e italiano. O Fausto de Goethe tomou de emprstimo alguns elementos do tradicional teatro de bonecos de Fausto. Quando Hndel esteve 
em Roma, para o Natal de 1709, ouviu os pastores dos Abruzzi a tocar fole; ele anotou a msica e usou-a para o seu Messias. The Dancing Master ("O mestre de danas"), 
de John Playford, era uma coletnea de danas para "cavalheiros habilidosos" e suas damas, mas os ttulos de muitas delas sugerem uma origem popular: Gathering Peascods 
("Catando ervilhas"), Jack a Leni ("Z Quaresma"), Milkmaid's Bob ("Bob da ordenhadora") ou Row Ye Well, Mariners ("Remem bem, marinheiros").82
Esse tipo de emprstimo pode se dar por vrias razes, e os que tomavam emprestado podem ter atitudes muito diferentes em relao  pg.87 cultura popular. Quando 
Pulci escreve a Lorenzo de Medici no jargo dos ladres, est apenas brincando e mostrando sua inventividade. Quando Villon emprega o jargo, isso pode expressar 
a identificao do poeta com os ladres, como no caso do seu equivalente espanhol do sculo XVI, Alonso Alvarez de Soria, filho de um rico mercador que virou pcaro 
e escreveu poemas sobre o mundo picaresco at sua execuo, em 1603. Ou quem toma de emprstimo pode ter uma atitude mais irnica em relao ao material, como  
seguramente o caso da The Beggars' Opera ("pera do mendigo"), de John Gay, que adapta algumas canes de rua da poca. A atitude de Gay em relao aos mendigos 
e ladres, de quem emprestou seu material, parece a da zombaria carinhosa  o que no significa que tambm no estivesse zombando do seu prprio mundo. Quando um 
veneziano educado do sculo XVII emprega o dialeto vneto para escrever uma stira poltica annima, ele est sugerindo que o povo comum no est satisfeito com 
a poltica do governo e deixa ao leitor que decida se est querendo dizer algo mais. Quando Perrault alimenta-se do folclore francs para os seus contes, o que est 
fazendo? Igualando o povo comum s crianas? Dando fora aos modernos na sua luta contra os antigos?83
Em outros casos, podemos estar razoavelmente seguros de que um tema determinado ia e voltava entre as duas tradies, ao longo dos sculos. Sabemos que Rabelais 
bebeu na cultura popular; a primeira parte do seu Pantagruel, em particular, baseou-se no folheto popular Grandes et inestimables chroniques de l'enorme gant Gargantua. 
Por outro lado, Bruscambille e Tabarin, palhaos do sculo XVII, basearam-se em Rabelais. No sculo XIX, as tradies orais brets incluam muitas lendas sobre Gargantua 
e  impossvel dizer se essas tradies recuam para antes de Rabelais ou refletem o impacto do seu livro.84 Ariosto  um outro exemplo de duplo trfego. Ele extraiu 
sua estria dos picos orais tradicionais dos cantadores italianos de estrias e elaborou-a (como Zrinyi faria posteriormente) segundo as ideias das classes sofisticadas. 
Alguns cantos do seu Orlando furioso voltaram  cultura popular sob a forma simplificada de folhetos. Canes francesas iam das ruas  corte e da corte voltavam 
s ruas. A poesia pastoral bebeu na cultura dos pastores, mas tambm encontramos autnticos pastores a cantar canes influenciadas pelas convenes das pastoris 
eruditas.85
Um dos casos mais extraordinrios de interao entre a tradio erudita e a popular  o da bruxa. Jacob Grimm achava que a crena nas bruxas vinha do povo; Joseph 
Hansen, no final do sculo XIX, sustentou que ela tinha sido elaborada por telogos, a partir de materiais pg.88 extrados das tradies clssica e crist. Pesquisas 
mais recentes sugerem que ambos estavam certos  em parte: a imagem da bruxa corrente nos sculos XVI e XVII envolvia elementos populares, como crena de que certas 
pessoas tinham o poder de voar pelos ares ou de fazer mal aos seus vizinhos por meios sobrenaturais, e elementos eruditos, notadamente a ideia de um pacto com o 
diabo.86
Essas interaes entre cultura erudita e cultura popular se tornavam ainda mais fceis porque, para acrescentar uma ltima restrio ao modelo de Redfield, havia 
um grupo de pessoas que ficavam entre a grande e a pequena tradio, e atuavam como mediadores. Certamente  possvel apresentar a cultura dos incios da Europa 
moderna como constituda por trs, e no duas, culturas, visto que a barreira da alfabetizao no coincidia com a barreira do latim. Entre a cultura letrada e a 
cultura oral tradicional vinha o que se poderia chamar de "cultura de folhetos", a cultura dos semiletrados, que tinham frequentado a escola, mas no por muito tempo. 
(O ingls infelizmente no dispe da distino que os italianos traam entre a literatura popolare e a literatura popolareggiante.) Essa cultura de folhetim pode 
ser vista como uma forma inicial daquilo que Dwight Macdonald chama de midcult, situada entre a grande e a pequena tradio, alimentandose de ambas.87  sabido que 
os folhetos propagavam as baladas tradicionais. O que aqui requer maior nfase  o fato de que os folhetos e livretes tambm se alimentavam da grande tradio. Acabei 
de mencionar o fato de que os livretes italianos do sculo XVI apresentavam cantos de Ariosto em forma simplificada. De modo semelhante, livretes espanhis ofereciam 
verses curtas e simples das peas de Lope de Vega e Caldern; livretes franceses incluam peas de Corneille, adaptaes de Ariosto e popularizaes de Rousseau; 
livretes ingleses incluam verses de Moll Flanders e Robinson Crusoe, cada qual reduzido a 24 pginas. A existncia dessas brochuras sugere que existia um pblico 
interessado nos autores, mas sem condies de comprar, ou entender, os textos integrais. Nessa categoria, poderiam caber autores que no se ajustam facilmente na 
tradio erudita ou popular: italianos, como Giulio Cesare Croce; espanhis, como Juan Timoneda; alemes, como Hans Sachs; ingleses, como Thomas Deloney.88 Pode-se 
arriscar a hiptese de que a espinha dorsal dessa cultura de folhetos consistia nos oficiais impressores, que participavam da cultura artes, mas tinham familiaridade 
com o mundo dos livros. Como as mulheres da nobreza, eles estavam numa boa posio para servirem de intermedirios entre a grande e a pequena tradio. Pg.89 
Neste captulo, tentei definir a cultura popular, e essa definio do indefinido revelou-se uma tarefa longa e complexa. Agora deveria ser possvel passar em revista 
as fontes para o nosso conhecimento sobre a cultura popular entre 1500 e 1800. De fato, geralmente elas so contaminadas. Estamos perante o problema do "mediador" 
num outro sentido, no o mediador entre a grande e a pequena tradio, mas o mediador entre ns e eles. Os problemas postos por esse tipo de mediao sero discutidos 
no prximo captulo. pg.90
